14/12/2014

Árvore dos cílios

-  Adonis


...e quando me resignei na ilha das pálpebras
em ser o hóspede das conchas e dos rastros
vi que o destino é um frasco
com águas e fagulhas
pronto a fazer do homem
mito ou fogo lendário,

eu ia carregado sobre os ramos
num bosque lácteo enfeitiçado
seu dia, consagrado à loucura, era
minha cidade, e a noite recinto íntimo. 


(Tradução de Michel Sleiman)

09/12/2014

Lo digo de cuerpo

-  Florència Vila


Disfruto centrando mi atención en el cuerpo porqué tiene un final. Es únicamente en el cuerpo donde encuentro un espacio cerrado. Hermético.


No hay nada más, más allá del cuerpo.


Es la misma sensación de tranquilidad que tenía cuando en el bachillerato estudiaba latín o sintaxis. Todo lo que había era aquello y no había nada más. El significado era cerrado. Tenía un final. El complemento directo era lo que respondía al qué.


Ahora sólo puedo encontrar este sentimiento en el cuerpo. Porqué ya no me tranquiliza estudiar sistemas cerrados. Necesito sentirlos.


Y sólo puedo sentirlos en el cuerpo. Para bailar o moverme, sólo necesito el cuerpo, y es el cuerpo y nada más allá del cuerpo lo que tengo que trabajar.





Me gusta que sea concreto. Que tenga unos músculos y unos huesos que de vez en cuando se lesionan. Me gusta que este cuerpo dependa de mi fuerza, que el hecho de aguantar mi peso sobre mis brazos dependa exclusivamente de mí.


Que sólo dependa de lo que yo soy. De la única realidad tangible que soy.


Y ya está.


Y me refugio en esto. En este sentir. Es en lo único en lo que puedo creer.


Me gusta sentir que mis piernas ya no aguantan más y demostrarme y demostrar a alguien, que nunca se quién es, que sólo depende de mi que aguanten un poco más. Porque -como había oído ya decir- “nadie sabe de lo que es capaz un cuerpo…”


Tenían razón.



                                                                   

Creo que en un pasado fui inconsciente de mi cuerpo. Aunque él se me expresaba y yo me expresaba a través de él, sin saberlo. Pero no lo reconocía. Porque lo ignoraba de alguna manera. Aun así, nunca lo desprecié. Ese no es mi estilo.


La ignorancia radicaba en que no era consciente de que era exclusivamente él quien me hacía sentir. Existir.


De aquí entiendo la hipocondría. Ese miedo a sufrir. Y a la vez esa emoción, la emoción de sentir fuerte, aunque sea dolor. Sentir que estoy viva y que la posibilidad de morir sigue allí, dando energía.


La capacidad sensorial es inimaginable. Y lo que puede aportar a nuestra existencia también. La capacidad de ampliación de nuestra percepción. Estuve mucho tiempo dando un exclusivo protagonismo a las ideas, tan distantes e huidizas. Colgadas de un poste carcomido por el paso, no del tiempo, sino de otras ideas.


Mientras que lo que quería absorber estaba justo ahí. Aquí. Y todo lo demás era un segundo plano. Un interesante segundo plano, pero sin sentido. Perdón: sin sentir.


                                           

Imagens: Laurent Benaim
Via  Identidades Híbridas


07/12/2014

The Shadow of the World Passes Over My Heart

-   Nikola Madzirov


I haven’t the courage of a relo­cated stone.
You’ll find me stretched on a damp bench
beyond all army camps and arenas. 

I’m empty as a plas­tic bag
filled with air. 

With hands parted and fin­gers joined
I indi­cate a roof. 

My absence is a con­se­quence
of all recounted his­to­ries and delib­er­ate longings.      

I have a heart pierced by a rib.
Frag­ments of glass float through my blood
and clouds hid­den behind white cells.

The ring on my hand has no shadow of its own
and is rem­i­nis­cent of the sun. I haven’t the courage
of a relo­cated star. 


(Tradução de Peggy e Gra­ham W. Reid)

05/12/2014

palavra-mágica

-  Demetrios Galvão


quando os pés adoecem

e esquecem os caminhos

o corpo precisa inventar voos.


os peixes nadam na profundidade da costela direita

na obscuridade do entre-ossos

migrando para o aconchego do litoral carnudo. 


                (a língua quando bem plantada
               
                atinge veios profundos
               
                manancial voluptuoso de fabulações)



busco então, a sobrenatural beleza:

as ancas africanas, a envergadura monárquica,

a anatomia incendiária.


me visto de asas e de lâmpadas

e vou ao teu encontro

com uma palavra-mágica adornando os olhos.

permanece na língua

-  Mariana Botelho
 
permanece na língua
o sabor de lima

e é doce -
como diz a memória

fruta
colhida
fora do tempo

Na noite

-  Henri Michaux


Na noite
Na noite
Eu uni-me à noite
À noite sem limites
À noite.


Minha, bela, minha.


Noite
Noite de nascimento
Que me enche do meu grito
Das minhas espigas.
Tu que me invades
Que marulhas, marulhas
Que marulhas a toda a volta
E fumegas, és tão densa
E muges
És a noite.
Noite que jaz, noite implacável.
E a sua fanfarra, e a sua praia
A sua praia ao alto, a sua praia em toda a parte
A sua praia bebe, a sua lei é rei, e tudo se enleia sob ela
Sob ela, sob mais fino que um fio
Sob a noite
A Noite.


(Tradução de Margarida Vale de Gato)

20/11/2014

To Lou Andreas-Salome

-  Rainer Maria Rilke


I held myself too open, I forgot
that outside not just things exist and animals
fully at ease in themselves, whose eyes
reach from their lives' roundedness no differently
than portraits do from frames; forgot that I
with all I did incessantly crammed
looks into myself; looks, opinion, curiosity.
Who knows: perhaps eyes form in space
and look on everywhere. Ah, only plunged toward you
does my face cease being on display, grows
into you and twines on darkly, endlessly,
into your sheltered heart.

As one puts a handkerchief before pent-in-breath-
no: as one presses it against a wound
out of which the whole of life, in a single gush,
wants to stream, I held you to me: I saw you 
turn red from me. How could anyone express
what took place between us? We made up for everything
there was never time for. I matured strangely
in every impulse of unperformed youth,
and you, love, had wildest childhood over my heart.

Memory won't suffice here: from those moments
there must be layers of pure existence
on my being's floor, a precipitate
from that immensely overfilled solution.

For I don't think back; all that I am
stirs me because of you. I don't invent you
at sadly cooled-off places from which
you've gone away; even your not being there
is warm with you and more real and more
than a privation. Longing leads out too often
into vagueness. Why should I cast myself, when,
for all I know, your influence falls on me,
gently, like moonlight on a window seat.


(Tradução de A. Poulin) 

18/11/2014

O Rio

-  Manuel Bandeira

Ser como o rio que deflui 
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranquilas.

10/11/2014

As mãos

-  Vittorio Sereni

Estas tuas mãos que sobre ti se fecham:
fazem-me noite no rosto.
Quando lentamente as abres, lá à frente
a cidade é aquele arco de fogo.
O sono futuro
será  de persianas riscadas de sol 
e eu terei perdido para sempre
aquele sabor de terra e vento
quando as voltares a abrir.

(Tradução de Stefano Cortese e gil t. sousa)

14/10/2014

a escrita é a minha primeira morada de silêncio

-  Al Berto

a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente… areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardastes
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu persegui teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Da natureza das coisas, Livro IV, vv. 1045-62

- Lucrécio

Assim, as partes se inflam de semente e surge
vontade de seguir loucuras da libido
[que incita as partes túrgidas com mais semente],
e o corpo busca o que feriu de amor a mente;
pois todos tombam junto da ferida, e o sangue
se apressa para o ponto em que sentira o golpe:
se perto, o rubro humor ataca o inimigo.
Se alguém sofrer os golpes das flechas de Vênus,
quer o atinja um menino de ares feminis,
ou a mulher que exibe amor em todo o corpo,
logo ele tenta, busca unir-se na ferida,
lançar o humor que sai do corpo noutro corpo,
pois um desejo mudo anuncia o prazer.
Eis nossa Vênus, donde vem o nome Amor,
dali destila a gota do dulçor venéreo
nos corações, depois a frígida paixão;
se longe está quem amas, restam simulacros
e o doce nome então revira nosso ouvido.

(Tradução de Guilherme Gontijo Flores)

16/09/2014

na pele

-  Geraldo de Barros


na pele
é onde
tudo acontece

onde
confesso
em arrepios
o que vivo

o lado de fora
da memória

janela
para cada instante

onde entro
e saio
sem me desfazer

porém
nunca sou o de antes


sal em pedra

-  gil t. sousa

(leitura duns olhos que passam por mim)

 conto-te estes dias, agora que o tempo me é largo e em cada canto das horas se pode erguer uma vida que eu não soubesse ser minha. uma vida inteira, toda, marcada por um beijo, um olhar ou outros raros gestos de magia. quero esquecer-me de dons e de talentos, deixar-me romper pela luz, por sombras escolhidas como facas que o destino me aponta, para me exigir uma outra respiração se me cobre de cinzas, se me amortalha na areia movediça do já não saber, do já não querer. ligo-me a outras máquinas livres de tempo, ciente de que perdi a minha mortalidade desde que a vida apenas me deu a berma de si própria. cosido ao chão de cidades sem nome com linhas duma dor antiga, cerzido de desespero à pedra das ruas, trapo caído, abandonado, parido por mãos rotas. todas as noites uma rua, dum lado o corpo, do outro a alma, no meio o nada.



minto-me nos quando e nos porquês, nos onde. infecto-me dessa verdade sem boca nem corpo. grito, eu grito por se me rasgar a pele como se um comboio-tesoura a atravessasse velozmente, no deserto do meu peito, dum lugar a outro, sítios vazios, sem paragem, deixando rastos como rios, rios de feridas correndo o meu corpo, alagando-o de veneno, comprimido, só à espera de explodir num poema, ou numa só palavra, numa definitiva palavra capaz de despertar catatónicos, de fundir consciências, ou de fazer escorrer pela primeira frecha de ternura esses olhares contidos.



porque a mim o tempo não me conhece e rasga-me, e lavra-me o corpo como se fosse terra já morta, campo de mais nenhuma semente, passando sem passar, deixando-me nos olhos a geometria do silêncio, as linhas rectas como espetos que são as esquinas das minhas ruas, que me trespassam dia após dia, neste embalo de álcool mal destilado, de neblinas que cegam como um falso amigo.



o frio é um tempo sem portas, um espaço de não conter, nem aberto nem fechado, um pulmão de desespero que se respira a si próprio, cravado na grande praça do coração. nu, eu estou tão nu. nem a mortalha dum país, duma cidade, duma casa, ou de um ser. definitivamente nu, errando no lombo de vielas, trapos de geografia, onde me engano de ser o meu lugar. minha montada, as vielas; meus passos, os moinhos.

10/09/2014

Metamestre

Marianne Lee 


Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
Uma pedra é que começa sua jornada.
Se a pálpebra oscila e o coração arde...
tem pela frente a imensidão da tarde.
Anda pensante, a mão quer a pena;
vai diletante e com um sorriso acena.
Ossos do ofício de uma escrita plena.

Bem, não duvidem do que aqui escrevo
enquanto conto nos fadados dedos
rascunhos feitos e depois rasgados;
nada concisos, ao mestre ofertados.
Assim cogito, e no entanto lá fora,
risos me dizem que ele passa agora.
Dons não faltam em seu olhar sisudo;
onde é Quixote também é Casmurro.

Gosto pelas letras – O sabor das palavras.
A prosa e a poesia seguem ritmadas,
lugares novos em sua densa escrita;
vultos, silêncios? - Não, tudo ali grita!
Assim sabemos não ser absurdo;
onde é Quixote também é Casmurro.
 
Kafka esculpiu no papel Samsa,
ritmo difuso em obscura dança;
ao mundo deu, este disforme humano.
Uns seguem mitos e outros os poetas,  
seguimos Krause e sua ousada meta:
- Então duvidem do que seja o plano!

30/08/2014

O píer

-  Victor Ribeiro

Essa faixa estreita
de madeira e de sonho
avança assim 
sem obstáculos 
lançando-se sem rodeios 
ao encontro do mar 
Dado um momento porém 
pára talvez encantada 
com a imensidão
E melhor do que vê-lo
o píer assim
de bem com esse mar
é caminhar sobre ele porque
à medida em que se anda
se esquecem os achaques
e as angústias da terra
para estar em contato
apenas com as águas
e com o que de bom trazem as águas
Nele avançamos e ao seu fim 
nada mais resta senão 
o infinito

26/08/2014

Celebrating childhood

-  Adonis
 [poema #300]
 

Even the wind wants
to become a cart
pulled by butterflies.

I remember madness
leaning for the first time
on the mind’s pillow.
I was talking to my body then
and my body was an idea
I wrote in red.

Red is the sun’s most beautiful throne
and all the other colors
worship on red rugs.

Night is another candle.
In every branch, an arm,
a message carried in space
echoed by the body of the wind.

The sun insists on dressing itself in fog
when it meets me:
Am I being scolded by the light?

Oh, my past days—
they used to walk in their sleep
and I used to lean on them.

Love and dreams are two parentheses.
Between them I place my body
and discover the world.

Many times
I saw the air fly with two grass feet
and the road dance with feet made of air.

My wishes are flowers
staining my days.

I was wounded early,
and early I learned
that wounds made me.

I still follow the child
who still walks inside me.

Now he stands at a staircase made of light
searching for a corner to rest in
and to read the face of night again.

If the moon were a house,
my feet would refuse to touch its doorstep.

They are taken by dust
carrying me to the air of seasons.

I walk,
one hand in the air,
the other caressing tresses
that I imagine.

A star is also
a pebble in the field of space.

He alone
who is joined to the horizon
can build new roads.

A moon, an old man,
his seat is night
and light is his walking stick.

What shall I say to the body I abandoned
in the rubble of the house
in which I was born?
No one can narrate my childhood
except those stars that flicker above it
and that leave footprints
on the evening’s path.

My childhood is still
being born in the palms of a light
whose name I do not know
and who names me.

Out of that river he made a mirror
and asked it about his sorrow.
He made rain out of his grief
and imitated the clouds.

Your childhood is a village.
You will never cross its boundaries
no matter how far you go.

His days are lakes,
his memories floating bodies.

You who are descending
from the mountains of the past,
how can you climb them again,
and why?

Time is a door
I cannot open.
My magic is worn,
my chants asleep.

I was born in a village,
small and secretive like a womb.
I never left it.
I love the ocean not the shores.




(Tradução de Khaled Mattawa)

Nunca soube o teu nome

- Maria do Rosário Pedreira


Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa-
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa-ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

17/08/2014

Close, close all night

-  Elizabeth Bishop


Close, close all night

the lovers keep.

They turn together

in their sleep,


Close as two pages

in a book

that read each other

in the dark.


Each knows all

the other knows,

learned by heart

from head to toes.

05/08/2014

Solitude

-  Alexander Pope

Happy the man, whose wish and care
A few paternal acres bound,
Content to breathe his native air
              In his own ground.

Whose herds with milk, whose fields with bread,
Whose flocks supply him with attire;
Whose trees in summer yield him shade,
              In winter, fire.

Blest, who can unconcernedly find
Hours, days, and years slide soft away
In health of body, peace of mind;
              Quiet by day.

Sound sleep by night; study and ease
Together mixed, sweet recreation,
And innocence, which most does please
              With meditation.

Thus let me live, unseen, unknown;
Thus unlamented let me die,
Steal from the world, and not a stone
              Tell where I lie.

29/07/2014

Solstício

-  Joana Paula Oliveira

Esquivo a chance
do derretimento
da transformação física
das camadas de pele congelada
Na fronte, pequenas avalanches
O corpo todo em solstício
E os fluidos orquestram
a migração dos peixes
para o silencioso útero

Reparo na brisa fria
os flocos de neve dentre as pernas
transformados em água
escoam amornando as fissuras

Evito o caminho do inverno
submergindo no lago de ontem
isolado pela fina camada de vidro

Hibernação anaeróbica
Asfixia

03/07/2014

Objeto sujeito

-   Paulo Leminski


você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer de um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois de sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra pasárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá

01/07/2014

Alma pequena

-  Franz Kafka

Alma pequena
salta em danças
lança a cabeça em mornos ares
levanta os pés da relva brilhante
que o vento leva em delicado movimento.

(Tradução de Tomaz Amorim Izabel)

27/06/2014

Preciso me encontrar

-  Cartola


Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar

Quero assistir o sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer e quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar



24/06/2014

Viento y mar

- Mario Benedetti


El viento arrima propuestas

mejores que las de antes

ya no son interrogantes

triviales o deshonestas

pero el mar tiene respuestas

que improvisa en el momento

y el diálogo es tan violento

que no podré descansar

mientras no se calme el mar

y no se interrumpa el viento

16/06/2014

Níobe transformada em fonte

 -  Sophia de Mello Breyner Andresen

(adaptado de Ovídio)

Os cabelos embora o vento passe
Já não se agitam leves. O seu sangue,
Gelando, já não tinge a sua face.
Os olhos param sob a fonte aflita.
Já nada nela vive nem se agita,
Os seus pés já não podem formar passos,
Lentamente as entranhas endurecem
E até os gestos gelam nos seus braços.



Mas os olhos de pedra não esquecem.
Subindo do seu corpo arrefecido,
Lágrimas lentas rolam pela face,
Lentas rolam, embora o tempo passe.

Móbile

-  Eucanaã Ferraz

Passamanarias de arame, papel
e luz, que recobri com a pele,

onde instalei meus ossos desatados percutindo
no vento, está lá

o arabesco,
sem arrimo, pingando um tempo estacionário entre

palmeiras, contra o céu da Voluntários, o Cristo
ao fundo, o cinema. Seu movimento

hesita, esgrima, cigarra, urina, é-não-é,
flores da ferrugem, palavras fáceis e cento

e um dentes ameaçando carros e coisas
elétricas, edifícios em fila, famílias. Fiz

o que tinha de ser. Ficou lá, inútil, ardendo
sobre o trânsito,

o móbile
gigante que seus olhos não viram,

que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.

Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,

o monstro
que seus cuidados não souberam,

que seu medo não quis,
que nem ao menos.

Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,

lixo,
lixo,

mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,

dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,

era lindo, era fácil,
era puro.

28/05/2014

The gamut

-  Maya Angelou


Soft you day, be velvet soft,
       My true love approaches,
Look you bright, you dusty sun,
       Array your golden coaches.


       Soft you wind, be soft as silk
My true love is speaking.
       Hold you birds, your silver throats,
His golden voice I'm seeking.


Come you death, in haste, do come
       My shroud of black be weaving,
Quiet my heart, be deathly quiet,
       My true love is leaving.

Especulações em torno da palavra homem

-  Carlos Drummond de Andrade


Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

27/05/2014

coincidências histéricas

-  Rubens Akira Kuana

eu quis comer a terra
que o seu pé esquerdo não possui
eu quis comer a terra
que o seu pé ainda não possui
eu ainda quis comer terra
apesar da sua cintura
ser ligeiramente menor
que o meu campo de visão
porque o meu campo de visão
é uma gangorra

21/05/2014

Conversa com o carteiro

-  Tazio Zambi


tem dias que me
perco &
peço que não

seja isso
só uma questão
de endereço

entre mudo
& midas
de riso engatilhado

à beira de um chiste
de
um salmo

ou à beira de um
bocejo
é

com o que não vejo
que
me salvo

estereofonia

-  Marília Garcia


nunca falei tão sério,
disse e olhei pra cima: seu rosto no
meio das gotas o guarda-chuva
preto como uma moldura redonda e você parado
cantando virado para o vidro do carro
sem ouvir mais nada
e a voz
            e a voz
                          e  a voz cantando no meio da chuva
não pó-sso
mais...
virado para o vidro do carro
isso podia ser você, mas o caminho mais rápido
de um ponto a outro, ele diz.
e eu  olhei pra cima:

pierre, arrependido, conta que
perto dali uma mulher entrou no
bar. ela tinha o seu nome.
_____: no, no es verdad.
LA CHICA: você estava lá?
_____: ela se chamava doris salcedo.

podia ter vindo de outro lugar, olhando pra longe,
os cílios partidos,
     e a voz cantando no meio da chuva
mas o caminho mais rápido, me diz, e
eu olho pra cima e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva. tem um pingo tornando malva
mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor que lembro era o
chumbo daquela vez
                                   e eu olho pra cima você descia
as escadas,
no último degrau já sabe
– cada curva contém 15 passos. ou será só um poema
essa viagem muda em ziguezague atravessando
asfalto, algarismos de velocidade
e raios de esquecimento?

sendo assim seu poema tem 15 passos, conta os metros
enquanto vai dizendo o poema caminhando mas
daquele dia vejo só o chumbo e a voz
no vidro do carro.

depois levanto um braço o guarda-chuva preto
moldura para descongelar cada um dos 24 degraus
para descongelar a ordem do verso seguinte.
panorâmica, golpe e locutor:

– você vai sempre pelo som?
– que som?

24/04/2014

I Am Vertical

-  Sylvia Plath


 But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one's longevity and the other's daring.

Tonight, in the infinitesimallight of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them--
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

23/04/2014

O Medo

-  Carlos Drummond de Andrade

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos riosvadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

vê, é o mundo!

-  gil t. sousa


gostava da janela pela madrugada
quando me puxavas para ti
e me dizias, apontando as luzes e as sombras
sobre os telhados da cidade:


vê, é o mundo!

Sanguine

-  Jacques Prévert

La fermeture éclair a glissé sur tes reins
et tout l'orage heureux de ton corps amoureux
au beau milieu de l'ombre
a éclaté soudain
Et ta robe en tombant sur le parquet ciré
n'a pas fait plus de bruit
qu'une écorce d'orange tombant sur un tapis
Mais sous nos pieds
ses petits boutons de nacre craquaient comme des pépins
Sanguine
joli fruit
la pointe de ton sein
a tracé une nouvelle ligne de chance
dans le creux de ma main
Sanguine
joli fruit

Soleil de nuit.

01/04/2014

A una mujer

-  Julio Cortázar 


No hay que llorar porque las plantas crecen en tu balcón, no
       hay que estar triste 
si una vez más la rubia carrera de las nubes te reitera lo 
       inmóvil, 
ese permanecer en tanta fuga. Porque la nube estará ahí,
constante en su inconstancia cuando tú, cuando yo --pero 
       por qué nombrar el polvo y la ceniza.


Sí, nos equivocábamos creyendo que el paso por el día 
era lo efímero, el agua que resbala por las hojas hasta 
       hundirse en la tierra.
Sólo dura la efímero, esa estúpida planta que ignora la 
       tortuga, 
esa blanda tortuga que tantea en la eternidad con ojos 
       huecos, 
y el sonido sin música, la palabra sin canto, la cópula sin 
       grito de agonía, 
las torres del maíz, los ciegos montes.
Nosotros, maniatados a una conciencia que es el tiempo,
no nos movemos del terror y la delicia, 
y sus verdugos delicadamente nos arrancan los párpados 
para dejarnos ver sin tregua cómo crecen las plantas del
       balcón, 
cómo corren las nubes al futuro.



¿Qué quiere decir esto? Nada, una taza de té. 
No hay drama en el murmullo, y tú eres la silueta de papel 
que las tijeras van salvando de lo informe: oh vanidad de 
       creer 
que se nace o se muere, 
cuando lo único real es el hueco que queda en el papel, 
el gólem que nos sigue sollozando en sueños y en olvido.