16/12/2015

Você não entende nada

-  Caetano Veloso


Quando eu chego em casa 
nada me consola
Você está sempre aflita
lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a Coca-Cola 
eu tomo
Você bota a mesa, 
eu como, eu como, eu como, 
eu como, eu como
Você
não está entendendo
quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, 
eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suíta, eu tomo
Bota a sobremesa eu como, eu como
eu como, eu como, eu como
Você
tem que saber que eu quero correr mundo
correr perigo
Eu quero é ir-me embora
eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo
e quero que você venha comigo




15/12/2015

A process in the weather of the heart

-  Dylan Thomas


A process in the weather of the heart
turns damp to dry; the golden shot
storms in the freezing tomb.
A weather in the quarter of the veins
turns night to day; blood in their suns
lights up the living room.

A process in the eye forwarns
the bones of blindness; and the womb
drives in a death as life leaks out.

A darkness in the weather of the eye
is half its light; the fathomed sea
breaks on unangled land.
The seed that makes a forest of the loin
forks half its fruit; and half drops down,
slow in a sleeping wind.

A weather in the flesh and bone
is damp and dry; the quick and dead
move like two ghosts before the eye.

A process in the weather of the world
turns ghost to ghost; each mothered child
sits in their double shade.
A process blows the moon into the sun,
pulls down the shabby curtains of the skin;
and the heart gives up its dead.

08/12/2015

Trabalho todo dia como um monge

-  Pier Paolo Pasolini


Trabalho todo dia como um monge 
e à noite vagueio, como um gato 
à cata de amor… Vou sugerir 
à Cúria que me santifique. 
Com efeito, respondo à mistificação 
com a mansidão. Olho com olhos 
de imagem os que vão linchar-me. 
Observo o meu massacre com a coragem 
serena de um sábio. Pareço 
sentir ódio, mas escrevo 
versos cheios de amor atento. 
Estudo a perfídia como um fenômeno 
fatal, como se dela não fosse objeto. 
Tenho pena dos jovens fascistas, 
e aos velhos, que são para mim formas 
do mais horrível mal, oponho 
apenas a violência da razão. 
Passivo como um pássaro que, voando, 
tudo vê, e, no seu vôo para o céu, 
leva no coração a consciência 
que não perdoa.

(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

07/12/2015

Tu eras também uma pequena folha

-  Pablo Neruda


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

02/12/2015

Dos cuerpos

- Octavio Paz

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.

Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.

18/11/2015

o poema é o resto

-  Amanda Araujo

o poema é o resto, a falta que não diluiu.
tá você, eu e o segredo, no mesmo mapa cartografado.
não sei se é justo te dedicar, assim como o que nunca foi dado;
não sei se torço o acaso até te encontrar, no cosmos, na terra. .
estou no 17° capítulo de sonho fugindo do mesmo pacto.
eu fui, mas voltei.

27/10/2015

Numa Lanchonete em 2012

- Ismar Tirelli Neto


Penso no homem que inventou a meia-noite.
A escarpa extática de seu nariz ao inclinar-se.
O ato de inclinar-se.
Catalogar, representar no espírito, os salgados expostos na estufa,
a luz branca que os mantinha, como que à força, em seu lugar.
Das duas entradas de uma galeria em “U” efluía então
certa ideia de movimento humano, persistência muda,
síntese,
não era difusa?
Emblema do que viemos a entender como natural
(“o mundo natural”, “a ordem natural das coisas”).
Estas pessoas que saem, que entraram, sabe-se lá por onde,
ninguém dá por nós,
este comércio estreito na luz branca,
esta galeria,
a luz atravancada de galerias, estufas, refrigeradores,
eu repito: natural.
Eu repito: as coisas representam-se no mundo.
É da ordem natural das coisas não revermos aquelas pessoas.
Não as vimos.
Nenhuma delas, por sua vez, reparou em nós.
Nenhuma delas nos interpreta, nem mesmo agora,
como o sítio de uma grande devastação futura,
que é precisamente o que somos:
a cerca desigual,
o corrimão,
arames
embrulhando a fronteira.
O que me comunica novamente este momento?
O que me comunica então esta rua, esta vizinhança, esta cidade, não estou sempre a nascer?
Procurando exasperadamente acomodar
o ar, a luz,
a ruminação nestas bocas?
A fome? a banalidade dos saciados?
Também naquele momento,
condenado, como todos os outros, a vir abaixo,
havia já qualquer coisa que vinha abaixo,
um punhado de pedriscos
despencando no mar,
a luz branca a escapar dos freezers,
das estufas, das vitrines.
A luz branca já voltava à carga.
Nós levantamos. Nós pagamos a conta.

09/10/2015

catar-se

-  Victor Pitanga

meu corpo é uma usina
de tártaro e metal rasgado
pulsando em vertigens
gerando luz de estrela em céu deserto

meu corpo é um redemoinho
onde os naufrágios desaguam em tormenta e tempestade
enquanto chove lá fora
meus cantos desenham um novo céu

meu corpo é som e instante
incendiando vilas esquecidas
planícies inteiras se pondo contra o sol
cantos de guerra que eu enterrei na areia

e há quem precise de motivo
que não a vida

27/09/2015

Tengo hambre de tu boca

-  Pablo Neruda


Tengo hambre de tu boca, de tu voz, de tu pelo
Y por las calles voy sin nutrirme, callado,
No me sostiene el pan, el alba me desquicia,
Busco el sonido líquido de tus pies en el día.
Estoy hambriento de tu risa resbalada,
De tus manos color de furioso granero, 
Tengo hambre de la pálida piedra de tus uñas,
Quiero comer tu piel como una intacta almendra.
Quiero comer el rayo quemado en tu hermosura,
La nariz soberana del arrogante rostro,
Quiero comer la sombra fugaz de tus pestañas
Y hambriento vengo y voy olfateando el crepúsculo
Buscándote, buscando tu corazón caliente
Como un puma en la soledad de Quitratúe.

14/09/2015

Rio de Janeiro, no futuro

-  Roberta Ferraz



existe algo à nomeação

talvez como à pureza



dedos de sombra em dália branca

frases num enleio de sal, sargaços

rosto poente



um helicóptero então

tirante a carmim

desencadeia o sumiço azul

– os corpos semoventes

já prestes à antiguidade

da noite



é breve acolher o beijo

estrangeiro

dado atrás da rede



ondas, ondas, para não mais

repisar o clichê obsedante:

tudo esparso e tão mínimo e



este cinema sempre

próximo

ao desmanche

26/08/2015

lances

-  abraão antunes

pessoas como cartas jogadas a mesa
a artimanha do blefe naquele olhar perdido
o trunfo de um sorrir

pessoas como cartas enviadas a esmo
a montanha de febre no desaguar iludido
o triunfo de um deslize

personas como máscaras aladas ao vento
alegria tamanha que explode sem sentido
o truque de ser feliz

Dog Barking at the Moon, de Juan Mirró

-  gil t. sousa


Olhá-la
como um portal de luz por onde passam os sonhos
e chamar-lhe lua

depois
superar o céu até a noite não doer mais
e resolver o enigma da escada
como se cada degrau fosse feito de tempo
e cada minuto tivesse a forma do desejo

e cair na eternidade como o olhar de um cão

Eu já escuto os teus sinais

-  Matilde Campilho


Olhe lá 
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rins
com meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respingador
como um profissional 
de marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada 
dá pra ver meio passado 
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo 
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32ºC no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando 
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada 
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade 
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá pra ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá pra ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá pra ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá pra ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só pra me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só pra beijar

a cidade na boca.

17/08/2015

Minas

- Ana Martins Marques

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais

Desmembramento de semicírculo

-  Matilde Campilho


Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.

04/08/2015

menos interpretação, mais expressão


-  Maíra Motta


menos interpretação, mais expressão
menos contração, mais expansão
menos couraças, mais entrega
se reinventar cotidianamente;
reconhecer nossa potência de afetar e ser afetado em movimento descontraído.
potência nasce do reconhecimento da morte da forma-
o que não te cabe mais?
tá fora da validade, joga fora
reconhece as tuas mortes pra reconhecer o que te vive.

02/08/2015

Além da terra, além do céu

-  Carlos Drummond de Andrade


Além da terra, além do céu
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastros dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fudamental essencial
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar
o verbo pluriamar,
razão de ser e viver.

27/07/2015

Wave

-  Laurie Stone


I am in my bed, and it feels like a raft being pulled behind a boat. I am flying across waves churned up in the wake, and I am afraid, but that is the element I remember as my music. Knowledge, I can’t say I acquired much, and then there is the forgetting. I held Primrose’s hand and said I think I’m afraid, and she thought I meant of death, but I was talking about my life as a pink ball rolling across the sidewalks of New York. The walls you bounce off tell you the size of your ambition and send you racing like a salmon to the planet where you were born. As I lay dying, I remembered my mother’s voice like the anthem of my first school. Mama, Mama, I said, calling the woman who could not tell the difference between our smells and whom I therefore had to leave. In fairy tales, people are warned against the temptations they can’t resist and then are turned into a pillar of salt, or a deer, or a swan. We’re not supposed to want to fall, but I found it thrilling not being attached to anything. People said I was beautiful, but I didn’t know the difference between the mirror and an empty book. That’s where I wanted to end up: in a house of unmeaning. I have to laugh at the white room my mind was becoming. What use is furniture when you no longer know how to sit but hover on the verge of being a page you are finally ready to write on? We don’t know who we are. It isn’t a human capacity, so you might as well wish for a golden beak to sprout from the parrot colored feathers on your face. A crest is rising, and it’s the tide of my blood. Even as a young girl, my eyebrows knit as if seeking each other consolation. Then I felt myself becoming liquid.

20/07/2015

Digo

- Eucanaã Ferraz


Imagino que seu nome é outra areia
outra fábula outro nu outro tédio outro ladrilho.
Ainda assim é você. Se seu nome fosse outro
do outro lado da linha outro nervo outra nostalgia
ainda era você e só por isso acenderia a alegria
de o ser mesmo que seu nome não valesse o cinema
mínimo de o escrevermos numa página e pudesse até 
não pertencer a este mundo e tivesse que ser dito
com luvas de borracha. Nome que andasse descalço
mas sem queixa da sorte porque ainda assim
quebravam nos seus passos as tardes de junho.
Podia ser um nome que não cantasse que
mal se sentisse que não conduzisse ao coração
dos velhos trens de carga. Mas seu nome
longe disso é berilo abrindo seu brilho na língua 
cada vez que o digo. Frondoso é e sob sua sombra
descansa talvez uma onça e na mais alta sílaba
um inseto finca seu alfinete e zine.
Mas podia não ser nada disso. Seria por exemplo 
onde batesse aleatório o dedo na página do dicionário,
imagino. E deduzo que enquanto houver nomes
sobre a Terra haverá discórdia e haverá poemas.

19/07/2015

18/07/2015

Vestir as cidades

-  Eucanaã Ferraz


A que vai em frente dos olhos, dependurada
em finos aros, não é larga
(vai do pavilhão da orelha

ao nariz), mas promete a visão
de outra que se projeta além dela,
nítida, translúcida.

O chapéu de copa e abas largas
é a Babilônia que viu nascer
e crescer a criança que partiu

com pressa e sem lhe dizer se agora
o traz à cabeça por lembrança
ou completo esquecimento.

A que os dedos puderem furtar será a luva
que lhes cairá mais certa: uns tantos edifícios
demolidos, mapas remotos, sinos sem torres,

trilhos de nenhum bonde. Das que insistem
agarradas nas solas dos sapatos jamais
se sabem os nomes, tantos os verbos

indecisos e as ruas mal costuradas. No entanto,
trajar-nos-á perfeita (é a ilusão que o diz) aquela
que só visitamos nas fotografias, no desejo,

nas vitrines, e que imaginamos impecável
nos ombros e nos punhos (por sobre aquela
que segue tatuada no braço, malgrado nosso).

Atento

- Adriano Espínola


Todos os dias,
batalho silenciosamente.

Ao respirar, busco ser o vento.
Ao caminhar, sou o caminho.
Ao sonhar, engendro o sonho do sonho,
delirante e consciente.
Ao pensar, penso o pensamento
e devagar o componho.
Ao realizá-lo, sou a realidade,
simplesmente.

Não há outra verdade
senão a que invento.

14/07/2015

Ombro

- Aline Bei


andava tão quieta. em todas as conversas ela
só ouvia.
tinha um rosto de gente interessada, daí o abuso, mas
por dentro
ela era
lotação da
Sé.
Precisava dizer umas boas, também,
Umas perguntas do tipo
Depois que morro nunca mais vejo meu corpo nem os corpos das pessoas que amei?
Só que antes
Ela precisava encontrar alguém de ouvido grande
maior que a boca ou pelo menos os 2
do mesmo tamanho,
que luta, ela pensava,
olhando a cidade de são Paulo 6 da tarde esperando o
busão
que demoraria muito,
muitíssimo
pra passar.
Antes
precisavam passar os carros que estavam na frente e parecia que sempre
tinham carros demais
na frente
de Ana.
Respirou fundo, de uma profundidade que
se fosse em metros,
Dava longe na nova
Zelândia, saltos
de bungy Jump
Sem vista pro mar. Cidade de pedra essa são Paulo, com suas
pessoas de pedra.
























               Chagall, The Red Roofs, 1958.

Rua do mundo

-  Eucanaã Ferraz

para o Jorge Fernandes da Silveira

Onde morou a Luiza.
Passei por ela, a rua, muitas vezes.
Chama-se agora "da Misericórdia"
e sabe de cor seu caminho

que desce à beira do rio 
no alto de um ramo de alecrim,
como um Tejo miúdo, todo de pedras
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.

O cano que rebentou junto ao passeio, 
sim, se calhar, 
inda não foi consertado,
que as coisas são lentas.

Chama-se agora "da Misericórdia"
a antiga Rua do Mundo.
Era talvez pequena
para nome tão afastadamente,

para a Terra toda e os astros, 
mas Luiza era um corpo celeste
a vigiar o andamento, o ruído,
o silêncio, o istmo,

as variações possíveis,
imprevistas, o sangue,
a asa, o sal inesgotável
do vário, o jogo.

Rua do mundo fora, 
de seres que se queimavam à luz.
Rua do mundo sensível,
onde Luiza metia o nariz.

Abarcar o mundo com as pernas, 
afundar no poema, cair 
no mundo, ganhar mundos,
fundos nenhuns, perder.

Era uma rua qualquer, mas
a chuva sabia seu nome, bem como 
os males irremediáveis, as ventanias, 
os alvoroços de verão, os insetos.

Mesmo a felicidade tantas vezes 
desceu e subiu tal qual uma vaga
desordenada, descalça, as pedras
daquela via sem reis nem padres.

Os sábados enchiam as calçadas de pernas.
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam. 
Luiza ouvia os cacos, cada um.
A rua frágil, a palavra disparada.

Já não se chama "do Mundo".
É agora "Rua da Misericórdia".
Já não é a vastidão do orbe,
mas, de joelhos, ora pro nobis.

O sol vinha reto varar a janela
da louca que atravessara
a noite à procura do verso
mais irritado, mais de si.

Do punhal ali, rente aos olhos,
ao fígado, ao coração, a mulher sabia 
que só uma palavra a salvaria: 
misericórdia. Não pediria? 

De longe, era possível ouvir um grito
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.
Mas era menos para ela que para o mundo,
menos para ela que para a rua do.

08/06/2015

O tempo de sedução terminou.

-  Al Berto



O  tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.
Por isso me ergo daqui e atravesso estas imagens coladas às
paredes, e ao atravessá-las descubro que estou perdido, e
condenado também a perder-te.

02/06/2015

O Homem Público n. 1

-  Ana Cristina Cesar


Tarde aprendi
bom mesmo 
é dar a alma como lavada.
Não há razão 
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita 
que vai sendo cortada
deixando uma sombra 
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

17/05/2015

Sobrepoesia

-  Chacal

a velha pergunta se instala 
na sala do meu dia a dia: 
pra que serve poesia? 
pra decorar cerimônia 
pra debelar a insônia 
para dar nume ao nome 
ou para cantar meu amor 
operísticamente? 
novas respostas se agitam 
em busca de uma saída: 
a poesia é precisa 
pelo sim e pelo não 
pelo que do não é til 
pelo que ainda é talvez 
pela energia sutil 
a poesia é assim. 
de novo o problema aparece 
e uma ruga se materializa: 
como viver de poesia? 
de fazer reclame anúncio 
de letrar o que é melodia 
de ficcionar o que é pedra 
ou posando de poeta 
oportunista lente? 
enfim a solução transparece 
em súbita luz muito viva: 
a poesia se vive 
sem meias medidas 
no transitivo direto 
sem tênis adidas 
no infinitivo descalço 
a poesia é o fim.

30/03/2015

Para Metka

-  Tomaž Šalamun

Se eu atear fogo à moldura branca da casa, a chama arderá
mais luzente que o peso cadente de nossos corpos?
Mais radiante que o samba? Mais brilhante que minha mente rala?
Estou na neve. Você dança. Sob as gigantescas
árvores verdes, com seus olhos tristes e lacrimosos.
Ouvimos as rimas e chinelos do seu pincel.
Das pradarias onde você vislumbra musgo e o que há sob
a mistura dele. Um lince branco arranhando uma garganta verde
              [escura.
Alguma vez o céu se detém e trepida? Onde você descansa?
Numa avalanche ou sobre a terra? Eu me devoro aqui, me devoro,
inchando para não ser dilacerado nas alturas.
pelas nuvens róseas, azuis e violetas, e as flores,
antes que a luz transborde e nos esmague.

(Tradução de Flávio Britto)

24/03/2015

Poemacto I

-  Herberto Hélder


Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade canta luzes.
Penso agora que é profundo encontrar as mãos.
Encontrar instrumentos dentro da angústia:
clavicórdios e liras ou alaúdes
intencionados.
Cantar rosáceas de pedra no nevoeiro.
Cantar sangrento nevoeiro.
O amor atravessado por um dardo
que estremece o homem até às bases.

Cantar o nosso próprio dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo.
Ao nome que sangra.
Que vai sangrando e deixando um rastro
pela culminante noite fora.
Isso é o nome do amor que é o nome
do canto. Canto na solidão.
O amor obsessivo.
A obsessiva solidão cantante.
Deito-me, e é enorme. É enorme levantar-se,
cegar, cantar.
Ter as mãos como o nevoeiro a arder.

As casas são fabulosas, quando digo:
casas. São fabulosas
as mulheres, se comovido digo:
as mulheres.
As cortinas ao cimo nas janelas
faíscam como relâmpagos. Eu vivo
cantando as mulheres incendiárias
e a imensa solidão
verídica como um copo.
Porque um copo canta na minha boca.
Canta a bebida em mim.
Veridicamente, eu canto no mundo.

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha
treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.

Imagino o meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela.
Nata. Flecha. Objecto cantante.
Corpo com sua morte que canta.
Imagino uma colina com vozes.
Uma escada com canto de estrela.
Imagino essa espessa nata cantante.
Uma que canta flecha.
Imagino a minha voz total da morte.
Porque tudo canta e cantar é enorme.

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.

16/03/2015

Looking ahead pushes the past deeper

-  A. Van Jordan

Looking ahead pushes the past deeper
Inside my pocket: memories, jangling
Like loose change but diminishing,
Day in an day out, as I try to figure
Out what comes next. The sky won’t predict days
Of prosperity, days of loss, but I
Study. I watch.

13/03/2015

Do not stand at my grave and weep

-  Mary Elizabeth Frye

Do not stand at my grave and weep,
I am not there; I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow,
I am the sun on ripened grain,
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning’s hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circling flight.
I am the soft star-shine at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there; I did not die

10/03/2015

Tratado geral das grandezas do ínfimo

-  Manoel de Barros


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

03/02/2015

Keep

-  Sharon Van Etten


Keep still so I can find you at your whim.
Breathe slowly so I can breathe with you.

Leave me alone,
We all want to feel at home.

Find me sleeping,
My inner dialogue's a drone.
Keep...

Don't cry for me,
I can't either, no I can't weep.

Remember these moments,
They're all we have
And all I can keep.

[...]



Curieuse

-  Lise Deharme


Tes cheveux sont des araignées noires et griffues
ton front un désert de sable blond
ton nez une vague de son
tes dents ont faim
ta bouche est fine
ton menton
une colline aiguë
mais tes yeux sont deux cratères
de lave et de gouffres ouverts
semés d'étincelles et de feu
Tes yeux sont deux mondes perdus.

28/01/2015

The greatest

-  Cat Power

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust

Melt me down
Into big black armor
Leave no trace of grace
Just in your honor
Lower me down
To culprit south
Make 'em wash a space in town
For the lead
And the dregs of my bed
I've been sleepin'
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
With brains that could explain
Any feeling

Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the lead
And the dregs of my bed
I've been sleepin'
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stall me
And then came the rush of the flood
Stars of night turned deep to dust





21/01/2015

La Terrasse

-  Yann Tiersen


un après-midi là, dans la rue du jourdain,
on peut dire qu'on était bien,
assis à la terrasse du café d'en face
on voyait notre appartement.

je ne sais plus si nous nous étions tus
ou si nous parlions tout bas là au café d'en bas,
mais je revois très bien la table et tes mains,
le thé, le café et le sucre à côté.

puis d'un coup c'est parti, tout s'est effondré,
on n'a pas bien compris, tout a continué,
tandis qu'entre nous s'en allait l'équilibre,
plus jamais tranquilles, nous tombions du fil.

cet après-midi là, dans la rue du jourdain,
en fait tout n'allait pas si bien,
assis à la terrasse du café d'en face
on voyait notre appartement,
si triste finalement avec nous dedans





08/01/2015

ao primeiro poeta da Hungria

-  Jorge Luis Borges


Neste período para ti futuro
Que desconhece o áugure que a forma
Proibida do porvir vê nos planetas
Ardentes ou nas vísceras do touro,
Nada me custaria, irmão e sombra,
Buscar ter nome nas enciclopédias
E descobrir que rios refletiram
Teu rosto, que hoje é perdição e pó,
E que reis, que ídolos, que espadas,
Que resplendor da tua infinita Hungria
Elevaram rua voz ao primo canto.
As noites e os mares nos separam,
As seculares modificações,
Os climas, os impérios e os sangues.
Porém nos une indecifravelmente
O misterioso amor pelas palavras,
Nosso costume de sons e símbolos.
Semelhante ao arqueiro do eleata,
Um homem só numa tarde vazia
Deixa correr sem fim essa impossível 
Saudade, que tem por alvo uma sombra.
Não nos veremos nunca face a face,
Oh, antepassado que minha voz não alcança.
Eu para ti não sou sequer um eco;
Para mim sou um tormento e um arcano,
Uma ilha de encanto e temores,
Como talvez o sejam os homens todos,
E como o foste tu, sob outros astros.

(Tradução de Josely Vianna Baptista)