12/10/2018

teoria crítica dos cowboys felizes

-  Júlia Manacorda


a obsessão em dizer algo 
que valha
a duração 
pois 
um som não conquista nada 
ainda 
a miniatura da tua voz 
a simples gravação de um som qualquer
a simples regravação de um som qualquer
e a simples alteração de um som
qualquer
e
a coleção de cadernos rasurados 
te contei
sobre o diagrama de Schillinger
contendo todas as escalas 
orientais e ocidentais 
rasurado na parede
quase no teto 
e
ainda 
não foi possível dar conta
de todo o som 
pois
notificar um som é
dizer sua duração 
tal como o livro
das Mutações
dizer um tempo
num jogo de números — 
aparentemente — 
aleatórios 
em termos matemáticos
passos discretos 
em termos do Tao
a porta intransponível
ou o conceito
de aventura em Simmel 
a questão política
de um grito abafado 
os aspectos práticos dos estudos de guerra 
como 
a palavra de ordem inaudível 
todo som contém seu oposto 
e uma frequência e uma altura
e uma amplitude e um volume
e um sobretom e um timbre
e uma duração e uma morfologia 
só é possível dizer o silêncio
em termos de 
duração

e a relevância de dizer
um Cage abreviado
diante dos cavalos 
tombados
ou dos cavalos 
montados

quem usa espada, hoje?

enfim, 
este é só o esforço
diário 
ou 
o exercício diário 
se apresento esta forma
insatisfatória 
é por ser tratar
mesmo
de uma prática 
diária
que não consta nos manuais de guerrilha
uma liturgia 
não citada
nos estudos estratégicos 
uma investigação 
diária
- ignorada pela teologia -
do Castelo
da pizza entre os ônibus
ou da estação de trem da Antuérpia 
cujo motivo heráldico
da colmeia
não simboliza -

como se poderia supor à primeira vista -
a natureza à serviço do homem,
nem a diligência como virtude social

mas
sim
acumulação de capital 
este não é um hieróglifo necessário 
este não é um deslocamento de imagem
desejado 
e esta não é a faca amolada
mas 
este é o braço que atravessou o fogo 
e este 
não é um acréscimo relevante 
como seria 
o peso dos pés e 
das pernas 
da estação araribóia 
gravados nesta 
fita magnética

04/10/2018

o elefante

-  Adelaide Ivánova


quando johanna morreu tinha um ano
e oito meses foi encontrada na piscina
apertava um elefante na mão que sua mãe
até hoje aperta muito embora o alzheimer
lhe impeça de lembrar por que ela a mãe
pulou na piscina ao ver johanna
à deriva no ventinho do norte da renânia
boiando na piscina que o pai de johanna
esqueceu de cobrir enquanto jogava
tênis com outros amigos talvez tão ou mais
ricos do que eles a mãe de johanna que hoje
já não se lembra de muita coisa como falei
por causa do alzheimer lembrou no entanto
de guardar o elefante só esqueceu
de tirar o vestido molhado dizem que passou
dias assim “parecia uma estátua grega” disseram
o que ninguém viu era que apertava também o
elefantinho em 1958 quando eu morri 50 anos
depois tinha vinte e cinco anos e seis meses e apertava
o primeiro verso de um poema de sylvia plath e resistia
bravamente de olhos fechados enquanto caía morto
o mundo inteiro embora soubesse que o resto do
poema é uma declaração de amor completamente idiota
como são todas as declarações de amor heterossexual
e como tantas coisas que plath escreveu recitava
o poema enquanto me afogava me perdoe plath me perdoe
campilho o mundo é um horror o elefante é de pelúcia
e ossinhos não são de mel
são apenas cálcio
nada mais.

18/09/2018

Why Poetry Can Be Hard for Most People

-  Dorothea Lasky


Because speaking to the dead is not something you want to do
When you have other things to do in your day
Like take out the trash or use the vacuum
In the edge between the stove and cupboard
Because the rat is everywhere
Crawling around
Or more so walking
And it doesn’t even notice you
It has its own intentions
And is searching for that perfect bag of potato chips like you once were
Because life is no more important than eating
Or fucking
Or talking someone into fucking
Or talking someone into something
Or sleeping calmly and soundly
And all you can hope for are the people who put that calm in you
Or let you go into it with dignity
Because poetry reminds you
That there is no dignity
In living
You just muddle through and for what
Jack Jack you wrote to him
You wrote to all of us
I wasn’t even born
You wrote to me
A ball of red and green shifting sparks
In my parents’ eye
You wrote to me and I just listened
I listened I listened I tell you
And I came back
No
Poetry is hard for most people
Because of sound

05/09/2018

A criação

-  Anna Akhmatova


Acontece deste modo: uma certa languidez;
No ouvido não se calam as pancadas dos relógios;
Ao longe diminui o estrondo do trovão.
E vislumbram-se queixas e gemidos
De aprisionadas vozes que não se reconhecem.
Um certo círculo secreto estreita-se,
Mas nesse abismo de badaladas e murmúrios
Levanta-se um som que tudo venceu.
É tal o silêncio irreparável em seu redor
Que se escuta como no bosque cresce a erva,
Como anda pela terra o mal com um alforge…
Mas as palavras começaram já a ouvir-se
E das rimas leves os tinidos de sinalização,  –
É quando eu começo a compreender,
E de modo simples as linhas ditadas
Deitam-se no caderno branco de neve.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e
Vadim Dmitriev)

24/08/2018

breve ensaio sobre a potência

-  rui costa


1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.


[breve ensaio sobre a potência - texto-ensaio composto por 31 fragmentos]

20/08/2018

quando os cavalos mergulhadores são obrigados

-  Maíra Ferreira


(para Danielle Magalhães)

quando os cavalos mergulhadores são obrigados
a mergulhar eu li
que para que eles não fujam e não desistam
na hora h
o chão lá de cima se abre sozinho
de forma que não há outra saída
a não ser descer e entrar de cabeça
na água lá embaixo
e é só assim que os cavalos mergulhadores não
desistem nem recuam nem mudam de ideia
porque na verdade eles não sabem
que estão prestes a cair
eles não sabem que serão jogados de tão alto
encurralados em uma situação onde
não existe retorno não existe
plano b exceto abraçar a queda agora
já que ela está aqui e exige
ser experimentada
e eu pensei que se eu fosse um cavalo
e fizessem isso comigo da próxima vez eu
é que não subiria as escadas
eu é que não pisaria lá em cima de novo
sabendo que mais uma vez o chão
poderia se abrir e eu mais uma vez
seria obrigado a saltar
talvez os cavalos sejam inocentes e não
pensem que se um homem fez uma coisa uma vez
ele vai fazer outras vezes também talvez os cavalos
sejam benevolentes e queiram dar novas
chances aos homens ainda que eles não mereçam
e continuem jogando os pobres cavalos
lá de cima
para boca do mar
na verdade pensando bem eu também
não sei se eu li isso ou se imaginei quando
vi a fotografia de um cavalo saltando
e concluí que não haveria motivo pra um cavalo
saltar de bom grado espontaneamente
os cavalos não são suicidas como nós somos
os cavalos têm algo incrível chamado
instinto de preservação
então a não ser que fossem obrigados não saltariam
os cavalos mergulhadores querem ser só cavalos
foi o que eu pensei
eles querem ser só cavalos
no chão onde podem segurar a vida com os cascos
potentes e exercer suas habilidades de galopar em alta velocidade
mas talvez eu é que não entenda nada
de cavalos e de saltos
e talvez haja saltos que não são suicidas
talvez os cavalos entendam alguma coisa
lá em cima e saltem mesmo porque querem
porque o chão não é o bastante para os seus
cascos potentes e suas habilidades de galopar em alta velocidade
talvez eu devesse ser mais como os cavalos
mergulhadores e me lançar de alturas inconciliáveis
para tentar entender
alguma coisa
que o chão não permite
que eu entenda

06/08/2018

Dora

-  Jarid Arraes


nunca esqueço de Dora
de sua paralisia
sua cegueira
sua oposição transformada
em patologia

como os homens
amam os códigos
que catalogam a loucura
feminina

e distribuem sintomas
por cima dos
hematomas
e taças de sangria

em suas camas
forradas com mentiras
e blocos de papel
onde escrevem cárceres
onde descrevem leitos
onde Dora e eu e todas
nós
devemos deitar
em espera

nunca esqueço do caso
de Dora
da coragem sufocada
por mãos livros
por páginas
escritas por homens
como ele
com números que são
camisolas
à força
e que mais cedo ou
mais tarde
acabamos por vestir

porque em seus blocos
camas poltronas
em seus estetoscópios
eles escutam
a rebeldia

porque Dora e eu e todas
nós
nos fazemos
ouvir

todos os meus amigos estão tendo crise de ansiedade

-  Danielle Magalhães


todos os meus amigos estão tendo crise de ansiedade
o caio foi parar na emergência
a ana está com psoríase na perna
a camila não para de andar
de um lado pro outro
dentro de casa
o corpo vai ficando todo
dormente ela diz que sente dor
depois vai parando de sentir
os dedos os lábios o
corpo a nati diz que nunca teve
mas diz que tem
outros transtornos possíveis
a bela tá sempre feliz
a bela não diz
mas um dia a bela
escreveu não vou sair porque
suor chorar dormir
a bela diz
três pontinhos
a mariana perde a fome
e eu não paro de comer
e de beber tudo anda caindo
menos o capital
obrigada por sempre deixar
a jujuba vermelha para mim
virou o meu modo de dizer
eu te amo meu estômago
vive eternamente em um pós-guerra
o mundo tá chato pra caramba
e todos vivemos tocando
a rolagem do teclado
como se estivéssemos
fazendo gozar
todas as bucetas do mundo
só que não
todos estamos só olhando
a nossa linha do tempo
como se uma coisa muito importante
fosse acontecer a qualquer momento
umas quatro crianças estão para nascer
os 23 manifestantes foram condenados
foi sentenciado
há tudo de novo no front
e mais nada nas mãos
o caio segura o peito
como se fosse enfartar
na foto ele ri ao mesmo tempo
a câmera do celular não sabe
que essa será a fotografia da minha geração
no exame a médica me diz
seu nervo tem uma cicatriz antiga
doutora eu nem sabia
que nervo tinha cicatriz
agora eu sei que ela começou antes
do tal do Baudelaire
chamar a modernidade
de reservatório de eletricidade
o que pulsa hoje doutora
não é o nervo
é a cicatriz atravessada na linha
de todas as nossas jugulares

Objetos

-  Augusto Guimaraens Cavalcanti


Nenhuma consolação nas formas

já não é claro o enigma das palavras

os objetos sempre excedem os nomes



Objetos recobertos de conceitos passam

de mão em mão sem pertencer a ninguém

– fria é a gramática provisória de suas mobílias nomeadas



Quando o silêncio se cobre de signos

objetos (supostamente inanimados) forjam para si

outros diálogos de incomunicabilidades



Desparafusadas as máquinas de produzir novidades,

objetos podem ser soldados ao ouro rude de nomes

transbordados no metal de outros nomes



Pelas bordas de uma mesma lâmina

áspera geografia de pulsação mineral

palavra polida pela pedra



Certos objetos sustentam uma pedra na cabeça

como se deslocassem um sol apagado

– objetos cada vez mais estranhos carregam

a cicatriz do inominável

01/08/2018

Lugar onde

- Ruy Belo

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria, de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
Solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

Trajeto

-  Micheliny Verunschk

Maçã.
Velhos que se falam
em
uma língua incompreensível.
Três quilômetros de paredes descascadas:
Outra cidade.
Palavras.
A casa rosa
com platibanda branca,
O o rio prenhe de embalagens coloridas,
o meu pai
me acenando noutra plataforma.
Poema.
A lembrança do poema,
o reconhecimento do poema,
sua perda.
Velocidade em espiral:
perfume barato,
a casa rosa,
crianças brincando num quintal,
camiseta vermelha, 
a minha vida num quadrado mágico.
Velocidade em espiral:
a língua dissoluta,
o filho morto da minha avó
na próxima estação,
a minha avó,
arames farpados nos muros,
como trepadeiras,
(o burburinho do trem).
Poema.
O cheiro do poema.
O poema sujo de carne.
O vidro embaçado
do poema.
os nervos expostos do poema..
Poema.
Uma caixa de madeira ordinária
forrada de flores
e tecido de algodão ordinário.
uma fotografia de alguém
que parece ser eu.
Tijolos vermelhos e brancos.
Velocidade descendente:
O amigo sem o nó na garganta,
o amigo luminoso horas antes,
o amigo dançando na memória no meu sonho.
Velocidade descendente:
A sua pele sobre a minha pele,
os seus cabelos alinhavados aos meus,
a cicatriz me atravessando.
O poema.
A voz inequívoca do poema.
O gosto de sêmen do poema.
O ritmo
a perda do poema.
O meu avô na outra margem.
O meu pai na outra margem.
Eu.
A cidade cinza,
contra o verde quase impossível
a mulher grávida
andando por sobre o lixão,
A a lua, como o sorriso doe um gato.
Aceleração contínua.
Velocidade em espiral.
Talvez eu na próxima parada,
viVisão do último trem subindo ao céu
num livro muito velho.
Aceleração.
Desaceleração.
Repouso.
Tudo parando.
Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.

anatomia das pálpebras

-  Marcelo Reis de Mello
                                              
                                                       para a Luiza

fechar os olhos
não é fabricar timidamente
a noite.

abri-los ainda não é
encarar de frente
o fogo.

apenas a primeira camada
das pálpebras
é feita de pele
e só quando se estanca
entre a pele e o coração
qualquer desnível
é porque se abriram

dentro
ou sobre as quais
(embora tão finas)
um pouco de músculo
e tecido laxo
glândulas, inervações
+ 150 cílios
contra a tempestade.

há coisas entre ver
e não ver
que não conhecemos
por mais de uma noite
através da qual tudo parece possível.

em anos terríveis
como este
que se acabam como se nascessem
de novo e de novo
damo-nos conta
de que olhar
tem a ver
também
(ou sobretudo)
com o tempo.

o tempo que como os olhos
só se mostra em superfície
esconde fissuras
fossas canais
e toda a estranha maquinaria
das lágrimas.

as horas podem ser
uma exalação oftálmica.

o corpo transpira oxímoros:
a pele que somos
é a pele mais nova.

ainda assim, Nava
dizia – o espelho da memória.

e não há nada mais profundo
do que os olhos
de um bebê.

contar ponteiros

-  Carla Diacov


Uma mancha como que feita a giz por uma mão de criança uma árvore tombada no céu de Osíris. Uma mancha como que feita à revelia do tempo descascada a tinta uma criança tombada num peito. Uma mancha como que desfeita um desfecho incrível uma sombra um relógio um galho um raio de sol à revelia da criança. Osíris Osíris um desespero um passo atrás um contento. A mancha. Um conjunto de crianças arriscadas.



Uma longa mesa uma bacia com frutas um amor e o teu amor. Uma bacia cansada um amor espalhado pela longa mesa com frutas teu amor inalcançável. Um braço estirado sobre a longa data uma bacia de outros tempos (quase todos frescos e sem sementes) a mesa tatuada no braço um amor com moscas nele. Uma árvore que se deitou com outra árvore um amor que ainda não um amor que desde a primeira luta entre homens entre jacarés umas frutas pisoteadas e mais um amor. Um instrumento musical sobre a longa mesa.



A cama a medida do casamento a cama. A cama o corredor o vulto o outro vulto e uma posta de baleia no criado mudo. A cama o rabo da baleia para fora da gaveta de cuecas o vulto primeiro. A ordem dos vultos um vulto o vulto o rastro da baleia no corredor. A cama a desordem das medidas o casal de vultos desonestos. O segundo vulto com o rabo para fora da cama da janela. O grito da baleia o grito do vulto segundo o grito da madeira o grito da gaveta dos tacos do piso do estrado do beiral. O grito a medida do casamento o grito uma baleia desonesta.



Uma jovem uma dança o silêncio dançado um coelho e um útero atrasados. O arrasto contrário dos passos dela. Um vestido muito largo o espaço entre o tecido e o couro com silêncio nele. Um braço tatuado numa tomada da pequena memória. Um braço que cobre parte do rosto com sardas numa tomada da pequena memória. Medir com a água qualquer tipo de atraso. Medir com guerras qualquer suspeita de amor. Medir com medos qualquer ameaça de flor.



Um homem um copo a postura de recolhimento um urso pardo um pente de casco de tartaruga. Um copo quase cheio um rapaz a postura de enfrentamento um urso polar um pente de casco de tartaruga. Um urso empalhado um copo tombado um atalho no chão um menino despenteado a primeira postura dissidente.



Um idoso uma criança uma criança idosa uma onça e uma xícara com leite com azeite. Um cachorro velho uma mulher barriguda uma barriga por etapas uma onça e uma xícara com água com azeite. Um carteiro um menino que quer ser carteiro velho uma menina desajeitada uma onça e uma xícara com nanquim com azeite. Uma onça uma onça idosa uma onça barriguda e uma xícara com os restos do relógio de pulso com azeite.

Os figos

-  Estela Rosa


Sylvia Plath diz que é preciso
escolher um figo
Mas eu estranho
fico cabreira
Nunca soube escolher figos

Na minha época de pequena
havia a figueira centenária
da minha mãe

Bastava florescer e começava a guerra

A disputa, de início
era eu e minha mãe
verde e maduro

[Antes de madurarem figos viram compotas]

Por meus olhos úmidos
e pela glicose alta
minha mãe desistia dos figos

[Figos nunca foram uma questão de escolha]

E aí mais uma batalha
Os sanhaços
tão azuis, tão bonitos
me carregavam de culpa

Feito pequenas máquinas de devorar
eles escolhiam todos os figos
e eu qualquer figo maduro

Sem poder de escolha
eu defendia os sobreviventes

As armas eram
restos de tecido
retalhos costurados
bicos potentes
lanças na cara

No fim das contas,
as máquinas sempre vencem
e me restava só um figo
O que sobrava.

Então, Sylvia
nunca escolhi meu figo
minha escolha, silenciosa,
sempre foi desistir dos figos.

É que pra alguns, querida,
o que importa mesmo
é a batalha.


Fiquei tanto tempo longe de casa

-  Dimitri BR

Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem reconheço a casa ao chegar
e as outras casas
as mesmas ruas
o mesmo jardim

E o sentimento estranho
de todo viajante ao chegar
este lugar não é mais o mesmo
este lugar não é mais o mesmo pra mim

Só os mesmos rostos de onde eu vim
roupa suja na bagagem
e a vida pra retomar

Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei mais de que lado está
do lado de dentro
ao lado da estrada
que nunca cruzei

Persiste em mim a alegria
certeza de toda chegada
e a tristeza da despedida
a tristeza da despedida, eu sei

Isso é quase tudo o que eu guardei
é o que levo na bagagem
e a vida

pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está

não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?

Fiquei tanto tempo longe de casa
Já nem sei se saí mesmo do lugar
um lugar
depois do outro
saindo de mim

Um dia eu saio sem rumo, eu sumo
poeira de estrada
vou partir, vou chegar
vou partir, vou chegar enfim

Não há fim – mas vou até o fim
levo o tempo na bagagem
e a vida

pra retomar a vida
vida de viagem
e a casa é o lugar onde se está

não vou retomar a vida
ela é de viagem
será que eu vou ter pra onde voltar?

Fiquei tanto tempo longe de casa
Penso em tudo que como eu não vai voltar

e nas pessoas que vêm e vão
nas pessoas que vêm e vão voltar

Sempre o pôr-do-sol em algum lugar
é o nascer do sol noutro lugar

30/07/2018

na praça may ayim

-  Natasha Félix

pensando em audre lord e em marielle


porque temos medo cerramos as próprias
mãos porque temos medo arrancamos
os molares porque temos medo
martelamos os joelhos porque
temos medo botamos fogo nos nossos
cabelos porque temos medo atiramos os
ossinhos do tornozelo no canal porque
temos medo os dedos quebrados são justos
porque temos medo cortamos línguas
unhas orelhas, o caminho.
tiramos raspas de pele dos cotovelos
testamos a faca na jugular
plantamos uma granada debaixo da cama enfiamos
a arma do crime no queixo
porque temos medo.
cortamos a energia desligamos os resistores
porque temos medo o sol se deita
amanhã e depois porque temos medo
temos ferramentas  temos o que cerrar arrancar
martelar temos o que incendiar o que jogar
fora o que cortar porque temos medo
sabemos cuspir enganar trair porque temos medo
porque temos medo
dormimos tranquilas.
porque temos medo
somos também muito elegantes muito obrigada.

fábula

-  Jarid Arraes


desistir é coragem difícil
somos programados
para tentar

deslizando aos barrancos
a pele das pernas
esfolada
os pulsos marcados
pelos rosários

é preferível morrer
sorrateiramente
em gorduras
açúcares
refluxos
pedras nos órgãos
no peito

mas desistir
essa é uma coragem
que todos 
não temos

Do desejo

-  Hilda Hilst





Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e ríctus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.


III 


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV


Se eu disser que vi um pássaro 
Sobre o teu sexo deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo; E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso 
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
e tudo isso em nós se fará disforme?


V


Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.


VI


Aquele Outro não via minha muita amplidão.
Nada LHE bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma Fome irada e obsessiva?



VII


Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?


VIII


Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
desejo é uma palavra com a vivez de sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
DESEJO é Outro. Voragem que me habita.


IX


E por que haverias de querer minha alma 
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando 
Aquele Outro. E te repito: por que haverias 
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-me da memória de coitos e de acertos.
Ou tent-me de novo. Obriga-me.


X


Pulsas como se fossem de carne as borboletas.
E o que vem a ser isso? perguntas.
Digo que assim há de começar o meu poema.
Então te queixas que nunca estou contigo
Que de improviso lanço versos ao ar
Ou falo de pinheiros escoceses, aqueles
Que apetecia a Talleyrand cuidar.
Ou ainda quando grito ou desfaleço
Adivinhas sorrisos, códigos, conluios
Dizes que os devo ter nos meus avessos.

Pois pode ser.
Para pensar o Outro, eu deliro ou versejo.
Pensá-LO é gozo. Então não sabes? INCORPÓREO É O DESEJO.

12/06/2018

Processador de leito de fluidos ou Misturador granulador de alta velocidade ou Granulador oscilante ou Máquina de compressão com rotação única

- Lucas van Hombeeck

como quebrar os bráquetes do aparelho
contra a maçã caramelada de anil-
ina e açúcar cravando
os dentes pela
cor dos flamingos
uma primeira bicicleta
seu mênstruo
cedendo o filete da gengiva
tártaro que calcifica os
restos do almoço
as cáries nossas
escolhas

como vestir a camisa já
esperando a tinta da casca brilhosa
na maçã quase um caco plástico sujando
o rosto escaralhado cheio de calor
debaixo dos botões a fogueira
da mistura que escorre
as regras

torcem como a quinta-coluna em junho
é diferente barroca diferentona
e gosta de maçã mas sem as sementes
elas germinam são incontroláveis
como as colônias ultramarinas
mal administradas abandonadas
à própria sorte ao terreno das coisas
em que penso quando não quero
pensar que seria foda
te encontrar comer contigo

uma maçã do amor iluminada suja
de areia e batom como a canção
que ouvimos no apartamento
do grajaú onde eu me senti
burro por não ter o que propor
depois da quarta garrafa de vinho
deitado no seu colo derelicto
arrebentado cheio de quinas
bráquetes bráquetes quebrando
o aparelho minha primeira
bicicleta

eu não sabia mas o que você queria
ali era uma máquina de festas
juninas que simulasse o gosto
de chamar as pessoas pelo nome
e ainda que isso não fosse o bastante
seria vermelho diria chega
insira sua ficha




13/03/2018

Bananas podres 4

-  Ferreira Gullar

É a escuridão que engendra o mel
ou o futuro clarão no paladar
(como quase luz
na saliva, e mais:
em alguma parte da vida
a escuridão
engendra
o olhar no corpo ansioso de abrir-se
à luz)

e o mel que
aflui da noite da polpa
(e feito
dessa noite) flui
do podre da polpa
da noite do podre
(sob a casca)
tal como um suicídio
ou um alarme ou
abafada rotação
nas moléculas
(e igual que
no cosmos cintila)
uma balbúrdia de ácidos
negros
inventando
um quase alvorecer na quitanda.

E pense bem: também
um tumor é um ponto intenso
da matéria viva,
de alta temperatura
como a gestar um astro
de pus
(assim se engendram os sóis,
os sons
no vazio abissal)

e assim também as vozes
do açúcar
(um negro
lampejo)
que assustam os mosquitos
(nuvens deles)
pairando no ar
dos escusos cantos
do depósito
de frutas
nos fundos da quitanda
rua da Alegria esquina de Afogados

e que faliu
e sumiu
para sempre
daquela esquina e do mundo, a quitanda,
bem como seu dono, o falado
Newton Ferreira e seus amigos Zé Dedão,
o Cantuária e o Elias,
todos
que poderiam afirmar
que sim, de fato as bananas
já estavam passadas, quase inteiramente podres
aquela tarde

e que ali amontoadas num alguidar
fermentavam
exalando no ar o doce odor
de bananas morrendo
o que efetivamente ocorreu
na cidade de São Luís do Maranhão
ao norte do Brasil
por volta de 1940…

E foda-se.

05/03/2018

Na história do nosso amor

-  Yehuda Amichai

Na história do nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros.

(Tradução de Millôr Fernandes)