- Robert Frost
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
30/12/2011
Entre o sono e sonho
- Fernando Pessoa
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.
28/12/2011
E então, que quereis?...
- Vladímir Maiakóvski
Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
(Tradução de E. Carrera Guerra)
19/12/2011
A Carlos Drummond de Andrade
- João Cabral de Melo Neto
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.
13/12/2011
Escrínio
- Daniel Lima
Antes vivia na certeza,
como uma águia aprisionada na gaiola.
A dúvida me libertou
deixando-me voar no espaço livre,
não mais certo de nada
senão da importância do voo.
(...)
Antes vivia na certeza,
como uma águia aprisionada na gaiola.
A dúvida me libertou
deixando-me voar no espaço livre,
não mais certo de nada
senão da importância do voo.
(...)
02/12/2011
Esta manhã encontrei o teu nome
- Maria do Rosário Pedreira
Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
22/11/2011
Daguerreotype Taken in Old Age
- Margaret Atwood
I know I change
have changed
but whose is this vapid face
pitted and vast, rotund
suspended in empty paper
as though in a telescope
the granular moon
I rise from my chair
pulling against gravity
I turn away
and go out into the garden
I revolve among the vegetables,
my head ponderous
reflecting the sun
in shadows from the pocked ravines
cut in my cheeks, my eye-
sockets 2 craters
among the paths
I orbit
the apple trees
white white spinning
stars around me
I am being
eaten away by light
I know I change
have changed
but whose is this vapid face
pitted and vast, rotund
suspended in empty paper
as though in a telescope
the granular moon
I rise from my chair
pulling against gravity
I turn away
and go out into the garden
I revolve among the vegetables,
my head ponderous
reflecting the sun
in shadows from the pocked ravines
cut in my cheeks, my eye-
sockets 2 craters
among the paths
I orbit
the apple trees
white white spinning
stars around me
I am being
eaten away by light
20/11/2011
EU VI O REI PASSAR
- Antonio Cicero
Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.
Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.
Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor
Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.
Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.
Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.
Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor
Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.
19/11/2011
O tempo passa? Não passa
- Carlos Drummond de Andrade
O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima,
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima,
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.
16/11/2011
Epílogo
- Anna Akhmátova
Fiquei a saber como murcham os rostos,
como das pálpebras o medo assoma,
como das pálpebras o medo assoma,
como o sofrimento escreve nas faces
rijas páginas de escrita cuneiforme,
como se tornam súbito prateadas
as madeixas ruças, madeixas pretas,
murcha o sorriso nos lábios subjugados
e no risinho seco tremem medos.
E estou a rezar não só por mim, mas
por todas que estiveram ali comigo
no calor de Julho e no frio cruel
junto ao muro vermelho e cego.
Outra vez a hora da missa das almas.
Vejo, ouço, sinto que elas vêm:
a que arrastarem a custo à janela,
a que já não pisa a terra mãe,
a que, sacudindo a cabeça bela,
disse: "venho aqui como à minha casa!"
Gostava de chamá-las pelo nome,
mas até da lista me amputaram.
Teci para elas uma ampla capa
das pobres palavras que lhes ouvia.
Vejo-as sempre, e por todo o lado,
jamais as esqueço, em nova desgraça.
E se amordaçarem minha boca extenuada,
donde grita um povo de cem milhões,
que elas me lembrem da mesma maneira
na véspera da hora do meu funeral.
E se nesta terra alguma vez
pensarem em me erguer um monumento,
terão todo o meu consentimento,
mas imponho: não o vão colocar
à beira d'água, onde nasci -
quebrou-se a última amarra com o mar -,
nem no jardim real, junto ao tronco amado
onde a sombra inconsolável me procura,
mas aqui, onde estive de pé trezentas horas
e não me destrancaram o ferrolho.
Porque receio esquecer, na morte calma,
o ribombar dos carros negros, o estalido
da porta odiosa, e como uivava
uma velha, tal um animal ferido.
Que das pálpebras imóveis de bronze
corra, como lágrimas, derretida neve
e a pomba da prisão arrulhe ao longe
e naveguem lentas as naves pelo Neva.
08/11/2011
A Party of Lovers
- John Keats
Pensive they sit, and roll their languid eyes,
Nibble their toast, and cool their tea with sighs,
Or else forget the purpose of the night,
Forget their tea — forget their appetite.
See with cross’d arms they sit — ah! happy crew,
The fire is going out and no one rings
For coals, and therefore no coals Betty brings.
A fly is in the milk-pot — must he die
By a humane society?
No, no; there Mr. Werter takes his spoon,
Inserts it, dips the handle, and lo! soon
The little straggler, sav’d from perils dark,
Across the teaboard draws a long wet mark.
Arise! take snuffers by the handle,
There’s a large cauliflower in each candle.
A winding-sheet, ah me! I must away
To No. 7, just beyond the circus gay.
‘Alas, my friend! your coat sits very well;
Where may your tailor live?’ ‘I may not tell.
O pardon me — I’m absent now and then.
Where might my tailor live? I say again
I cannot tell, let me no more be teaz’d —
He lives in Wapping, might live where he pleas’d.’
Le jet d'eau
- Charles Baudelaire
Tex beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis, elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente,
Descend jusqu'au fond de mon coeur.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
O toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plaintre éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancolie
Est le miroir de mon amour.
Tex beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis, elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente,
Descend jusqu'au fond de mon coeur.
La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.
O toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plaintre éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancolie
Est le miroir de mon amour.
31/10/2011
La courbe de tes yeux
- Paul Éluard
La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards
La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs,
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards
30/10/2011
Apontamento
- Álvaro de Campos
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
28/10/2011
Elsa
- Louis Aragon
Tandis que je parlais le langage des vers
Elle s'est doucement tendrement endormie
Comme une maison d'ombre au creux de notre vie
Une lampe baissée au coeur des myrtes verts
Elle s'est doucement tendrement endormie
Comme une maison d'ombre au creux de notre vie
Une lampe baissée au coeur des myrtes verts
Sa joue a retrouvé le printemps du repos
O corps sans poids pose dans un songe de toile
Ciel formé de ses yeux à l'heure des étoiles
Un jeune sang l'habite au couvert de sa peau
O corps sans poids pose dans un songe de toile
Ciel formé de ses yeux à l'heure des étoiles
Un jeune sang l'habite au couvert de sa peau
La voila qui reprend le versant de ses fables
Dieu sait obéissant à quels lointains signaux
Et c'est toujours le bal la neige les traîneaux
Elle a rejoint la nuit dans ses bras adorables
Dieu sait obéissant à quels lointains signaux
Et c'est toujours le bal la neige les traîneaux
Elle a rejoint la nuit dans ses bras adorables
Je vois sa main bouger Sa bouche Et je me dis
Qu'elle reste pareille aux marches du silence
Qui m'échappe pourtant de toute son enfance
Dans ce pays secret à mes pas interdit
Qu'elle reste pareille aux marches du silence
Qui m'échappe pourtant de toute son enfance
Dans ce pays secret à mes pas interdit
Je te supplie amour au nom de nous ensemble
De ma suppliciante et folle jalousie
Ne t'en va pas trop loin sur la pente choisie
Je suis auprès de toi comme un saule qui tremble
De ma suppliciante et folle jalousie
Ne t'en va pas trop loin sur la pente choisie
Je suis auprès de toi comme un saule qui tremble
J'ai peur éperdument du sommeil de tes yeux
Je me ronge le coeur de ce coeur que j'écoute
Amour arrête-toi dans ton rêve et ta route
Rends-moi ta conscience et mon mal merveilleux.
Je me ronge le coeur de ce coeur que j'écoute
Amour arrête-toi dans ton rêve et ta route
Rends-moi ta conscience et mon mal merveilleux.
Do meu amor para a tua infância
- Micheliny Verunschk
O menino de porcelana
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.
Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau
( As árvores são dois meninos
Há tempos imemoriais ).
Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).
O menino de porcelana
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.
Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau
( As árvores são dois meninos
Há tempos imemoriais ).
Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).
Fui eu
- Rubens Jardim
Não se aprende um rosto
contemplando quadros.
O rosto sempre excede
a expressão quadro.
Mesmo quando cede
sua sede de rio
sua sede de água
o rosto incide
a impressão quadro.
Já não falamos moldura
ou outro ornamento
ou outro acessório.
Mas a própria tela
em transbordamento:
aquário seco.
Não se aprende um rosto
contemplando quadros.
O rosto sempre excede
a expressão quadro.
Mesmo quando cede
sua sede de rio
sua sede de água
o rosto incide
a impressão quadro.
Já não falamos moldura
ou outro ornamento
ou outro acessório.
Mas a própria tela
em transbordamento:
aquário seco.
Viagem
- Bernadette Lyra
Pelos meus dedos molhados
escorrem largos oceanos.
Pelos meus dedos azuis
desfilam navios esquálidos.
Meus dedos estão cansados
por isto, já nem se fecham:
portos vagos abrem-se e deixam
partirem todos os sonhos.
Os sonhos vão como mortos
em seus esquifes marinhos
nos corpos sem consistência
pousam anêmonas.
Os rostos entre rochedos opostos desaparecem.
Mistério exibe-se em ar grave e sério
à terra do esquecimento.
Restos de brumas aladas
perpassam na maresia.
Minhas mãos já não sustentam
quilhas contra as águas claras.
Cantam na vela enfunada
ventos de todo quadrante
por mais que busquem o horizonte
o infinito os afasta.
- Sou como viageiro estranho,
por mais que busque e navegue
do infinito o talvegue,
jamais reencontro os sonhos.
Pelos meus dedos molhados
escorrem largos oceanos.
Pelos meus dedos azuis
desfilam navios esquálidos.
Meus dedos estão cansados
por isto, já nem se fecham:
portos vagos abrem-se e deixam
partirem todos os sonhos.
Os sonhos vão como mortos
em seus esquifes marinhos
nos corpos sem consistência
pousam anêmonas.
Os rostos entre rochedos opostos desaparecem.
Mistério exibe-se em ar grave e sério
à terra do esquecimento.
Restos de brumas aladas
perpassam na maresia.
Minhas mãos já não sustentam
quilhas contra as águas claras.
Cantam na vela enfunada
ventos de todo quadrante
por mais que busquem o horizonte
o infinito os afasta.
- Sou como viageiro estranho,
por mais que busque e navegue
do infinito o talvegue,
jamais reencontro os sonhos.
Ars Poetica
- Anne Coray
Nothing can be said
that is intended.
You cannot grow melons
but you learn that swamp grass
is of equal value.
If you should exact
the sound of a dove
you are perhaps unfortunate.
The coo must become
something slightly
undefined and private.
Deference to the self
is the only way to patience.
Is the slug unhappy
because he has no followers?
If you believed once in water
(whether oceans or tears)
you will someday uncover salt.
You will learn how it is mined,
begin a study of structure.
Curiously, you'll find the tongue
reluctant to accept a formal logic.
What you tend, after all,
is invariably simple:
a leaf, a blade, a stone,
the vowels long and pure,
rich and lovely.
Nothing can be said
that is intended.
You cannot grow melons
but you learn that swamp grass
is of equal value.
If you should exact
the sound of a dove
you are perhaps unfortunate.
The coo must become
something slightly
undefined and private.
Deference to the self
is the only way to patience.
Is the slug unhappy
because he has no followers?
If you believed once in water
(whether oceans or tears)
you will someday uncover salt.
You will learn how it is mined,
begin a study of structure.
Curiously, you'll find the tongue
reluctant to accept a formal logic.
What you tend, after all,
is invariably simple:
a leaf, a blade, a stone,
the vowels long and pure,
rich and lovely.
07/10/2011
A aeronave
- Augusto dos Anjos
Cindindo a vastidão do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.
E na esteira sem fim da azúlea esfera
Ei-la embalada n’amplidão dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.
Voa, se eleva em busca do infinito,
É como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.
Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.
Cindindo a vastidão do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.
E na esteira sem fim da azúlea esfera
Ei-la embalada n’amplidão dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.
Voa, se eleva em busca do infinito,
É como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.
Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.
Représentation
- Jacques Prévert
Des représentants de commerce du Peuple sont en scène et
échangent de terribles invectives.
Le rideau tombe et se relève sans que les acteurs y aient prêté attention
et ils continuent leur <conversation>.
- Qu'est-ce que cela peut faire que je lutte pour la mauvaise cause
puisque je suis de bonne foi?
- Et qu'est-ce que ça peut faire que je sois de mauvaise foi puisque
c'est pour la bonne cause?
Ils se saluent.
Le rideau tombe puis se relève.
Ils s'en aperçoivent et s'invectivent.
Des représentants de commerce du Peuple sont en scène et
échangent de terribles invectives.
Le rideau tombe et se relève sans que les acteurs y aient prêté attention
et ils continuent leur <conversation>.
- Qu'est-ce que cela peut faire que je lutte pour la mauvaise cause
puisque je suis de bonne foi?
- Et qu'est-ce que ça peut faire que je sois de mauvaise foi puisque
c'est pour la bonne cause?
Ils se saluent.
Le rideau tombe puis se relève.
Ils s'en aperçoivent et s'invectivent.
21/09/2011
Le Dormeur du Val
- Arthur Rimbaud
C'est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.
Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
C'est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.
Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
18/09/2011
Inverno
- Antonio Cicero
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar
O que alguém disse
- Florbela Espanca
"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém
"Eleva-te num vôo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém"
No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E n'Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...
"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém
"Eleva-te num vôo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.
Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém"
No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem... E n'Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...
O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...
03/09/2011
The cloak, the boat, and the shoes
- William Butler Yeats
"What do you make so fair and bright?"
"I make the cloak of Sorrow:
O lovely to see in all men's sight
Shall be the cloak of Sorrow,
In all men's sight."
"What do you build with sails for flight?"
"I build a boat for Sorrow:
O swift on the seas all day and night
Saileth the rover Sorrow,
All day and night."
"What do you weave with wool so white?"
"I weave the shoes of Sorrow:
Soundless shall be the footfall light
In all men's ears of Sorrow,
Sudden and light."
"What do you make so fair and bright?"
"I make the cloak of Sorrow:
O lovely to see in all men's sight
Shall be the cloak of Sorrow,
In all men's sight."
"What do you build with sails for flight?"
"I build a boat for Sorrow:
O swift on the seas all day and night
Saileth the rover Sorrow,
All day and night."
"What do you weave with wool so white?"
"I weave the shoes of Sorrow:
Soundless shall be the footfall light
In all men's ears of Sorrow,
Sudden and light."
01/09/2011
De EU
- Karel Van de Woestijne
O meu olho direito pôs-se branco; o esquerdo negro.
Eis-me em pé: uma torre entre dois olhos.
Uma flor abre-se dum pulo. E o dia abre-se dum pulo.
Eu próprio? Espanto. Todavia: nem um estampido.
Hora: asa que se esvai, relampejo. E... uma rosa
que cheira ao poente, ah morte enfim chegada.
Não, sou cego como uma rosa sangrenta
que se põe luminosa à noite.
O meu olho direito pôs-se branco; o esquerdo negro.
Eis-me em pé: uma torre entre dois olhos.
Uma flor abre-se dum pulo. E o dia abre-se dum pulo.
Eu próprio? Espanto. Todavia: nem um estampido.
Hora: asa que se esvai, relampejo. E... uma rosa
que cheira ao poente, ah morte enfim chegada.
Não, sou cego como uma rosa sangrenta
que se põe luminosa à noite.
25/08/2011
Soneto do amor indeciso
- Pedro Lyra
Estamos livres,
basta:
desejamos.
É preciso tentar
para não negar-se.
Mas rompe a autocensura
e finca um muro
entre o sonho e o real;
a intolerância,
entre o desejo e a lei
- instituídos
por carrascos do sonho e do desejo.
(Então se hesita:
valerá o empenho
sem saber se o objeto vale a ideia
nem se o provar compensa a transgressão
e
em vez de satisfeito
arrependido?)
Não é por medo:
é só pela descrença
de que o desfrute iguale a expectativa.
E nesta indecisão
esvai-se o mundo
sem o gosto sequer de ter tentado.
Estamos livres,
basta:
desejamos.
É preciso tentar
para não negar-se.
Mas rompe a autocensura
e finca um muro
entre o sonho e o real;
a intolerância,
entre o desejo e a lei
- instituídos
por carrascos do sonho e do desejo.
(Então se hesita:
valerá o empenho
sem saber se o objeto vale a ideia
nem se o provar compensa a transgressão
e
em vez de satisfeito
arrependido?)
Não é por medo:
é só pela descrença
de que o desfrute iguale a expectativa.
E nesta indecisão
esvai-se o mundo
sem o gosto sequer de ter tentado.
Reading Hamlet
- Anna Akhmátova
Dust rose from the vacant lot to the right of the cemetery,
and behind it the river flashed blue.
You told me: “All right then, get thee to a nunnery,
or go get married to a fool…”
Only princes make such speeches,
but I remembered those words.
May they flow like an ermine mantle from your shoulders
for hundreds and hundreds of years.
Ans as if by mistake
I used the familiar: “Ty…”
and the shadow of a smile lit up
your sweet features.
From slips such as these
such glances can blaze…
I love you like forty
fond sisters.
And when we had cursed each other,
passionate, white hot,
we still didn’t understand
how small the earth can be for two people,
and that memory can torment savagely.
The anguish of the strong - a wasting disease!
And in the endless night the heart learns
to ask: Oh. where is my departed lover?
And when, through waves of incense,
the choir thunders, exulting and threatening,
those same eyes, inescapable,
stare sternly and stubbornly into the soul.
Dust rose from the vacant lot to the right of the cemetery,
and behind it the river flashed blue.
You told me: “All right then, get thee to a nunnery,
or go get married to a fool…”
Only princes make such speeches,
but I remembered those words.
May they flow like an ermine mantle from your shoulders
for hundreds and hundreds of years.
Ans as if by mistake
I used the familiar: “Ty…”
and the shadow of a smile lit up
your sweet features.
From slips such as these
such glances can blaze…
I love you like forty
fond sisters.
And when we had cursed each other,
passionate, white hot,
we still didn’t understand
how small the earth can be for two people,
and that memory can torment savagely.
The anguish of the strong - a wasting disease!
And in the endless night the heart learns
to ask: Oh. where is my departed lover?
And when, through waves of incense,
the choir thunders, exulting and threatening,
those same eyes, inescapable,
stare sternly and stubbornly into the soul.
23/08/2011
Espaço curvo e finito
- José Saramago
(...)
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Execução
- Floriano Martins
O que te domina
em tua solidão.
O que te beija e trai
com estranha intimidade.
O que colhe tua febre
e inocente fere
o teu atormentado.
O que te ama
e convive a tua morte.
O que te mata
ao prometer-se amar.
Que por vezes te abandona,
mas nunca te esquece
O que apenas sentes,
que está em ti como ausente.
O que rege
(profundo) o teu destino.
O que vive em ti,
(ausente)
vive em ti a tua morte.
(...)
O que te domina
em tua solidão.
O que te beija e trai
com estranha intimidade.
O que colhe tua febre
e inocente fere
o teu atormentado.
O que te ama
e convive a tua morte.
O que te mata
ao prometer-se amar.
Que por vezes te abandona,
mas nunca te esquece
O que apenas sentes,
que está em ti como ausente.
O que rege
(profundo) o teu destino.
O que vive em ti,
(ausente)
vive em ti a tua morte.
(...)
22/08/2011
Le Poison
- Charles Baudelaire
Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.
L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Allonge l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et de plaisirs noirs et mornes
Remplit l'âme au delà de sa capacité.
Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme tremble et se voit à l'envers...
Mes songes viennent en foule
Pour se désaltérer à ces gouffres amers.
Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remord,
Et, charriant le vertige,
La roule défaillante aux rives de la mort !
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.
L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Allonge l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et de plaisirs noirs et mornes
Remplit l'âme au delà de sa capacité.
Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme tremble et se voit à l'envers...
Mes songes viennent en foule
Pour se désaltérer à ces gouffres amers.
Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remord,
Et, charriant le vertige,
La roule défaillante aux rives de la mort !
18/08/2011
(nem tudo precisa ser nomeado)
- Natália Prioto Pavezi
Quem sabe o sol
engoliu tua lucidez
deixou como chave essa
sede voraz
e
a porta entreaberta
09/08/2011
No echo
- Laurence Weisberg
At the zenith of the sundial
the ghost's eye appears
Its bones of sight written across the tomb of the Mongol-light-generator
The fires of washed opals capsize in your ear
as a clothespin of absinth shuts your eyes
The subway rails of black bees begins to sing
as your voice wanders through aberrant zones of exigesis
and the thundering of unknown words
Faces of dead kings vomit over rain forests ravaged by alphabets once hung
from baobabs of pure silver
There you have the Japanese lantern of lost identities
Synapse of conquistadors falling through the last vestige of clerical arteries
as they raise their slippers of mucilage to the gauntlet of mauve insects
who play the bagpipes of sorrows at the edge of the pond
The flag of gothic kisses is raised
and it relives its dream
the wedding of marsupial lesbians
whose beehives of amethyst let me dream at night
so that we might appear surpreised
At the zenith of the sundial
the ghost's eye appears
Its bones of sight written across the tomb of the Mongol-light-generator
The fires of washed opals capsize in your ear
as a clothespin of absinth shuts your eyes
The subway rails of black bees begins to sing
as your voice wanders through aberrant zones of exigesis
and the thundering of unknown words
Faces of dead kings vomit over rain forests ravaged by alphabets once hung
from baobabs of pure silver
There you have the Japanese lantern of lost identities
Synapse of conquistadors falling through the last vestige of clerical arteries
as they raise their slippers of mucilage to the gauntlet of mauve insects
who play the bagpipes of sorrows at the edge of the pond
The flag of gothic kisses is raised
and it relives its dream
the wedding of marsupial lesbians
whose beehives of amethyst let me dream at night
so that we might appear surpreised
19/07/2011
Undo
- Ingrid Varella
Unsing all the songs.
Unwrite all the poetry.
Unsay all the words.
Untouch my skin.
Undeceive my dreams.
Unfeel my heart.
Unlet me fall.
Uncry the tears.
Unlook at me.
Unhide the lies.
Unembrace my soul.
Undo our love.
Unsing all the songs.
Unwrite all the poetry.
Unsay all the words.
Untouch my skin.
Undeceive my dreams.
Unfeel my heart.
Unlet me fall.
Uncry the tears.
Unlook at me.
Unhide the lies.
Unembrace my soul.
Undo our love.
Louco (Hora do delírio)
- Junqueira Freire
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.
Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele,
Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.
Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.
Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.
Agora, sim – o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.
E vós, almas terrenas, que a matéria
Os sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: – um louco!
Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
16/07/2011
Soneto de Constatação - XXVI
- Pedro Lyra
Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.
Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.
Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.
Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.
Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:
— só interessa mesmo o que lhe falta.
Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.
Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.
Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.
Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.
Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:
— só interessa mesmo o que lhe falta.
05/07/2011
Geografia íntima do deserto
- Micheliny Verunschk
I - O corpo amoroso do deserto
Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.
Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?
E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.
Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.
II - A presença dolorosa do deserto
Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.
I - O corpo amoroso do deserto
Teu corpo
branco e morno
(que eu deveria dizer sereno)
é para mim suave e doloroso
como as areias cortantes
dos desertos.
Que importa
que ignores minha sede
se tua miragem
é água cristalina?
E a miragem
eu firo com mil línguas
e cada uma
é um pássaro a bebê-la.
Ferroam minha pele
escorpiões de sol
com seu veneno
e vejo,
magoada de desejo
os grãos tão leves
indo embora ao vento.
II - A presença dolorosa do deserto
Teu nome
é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio
território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto
há de ilusório.
Teu nome
é meu deserto
e ele é tão vasto,
seus dentes tão agudos,
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
dos meus lábios)
são meu terço
de mistérios dolorosos.
04/07/2011
Murmúrio
- Cecília Meireles
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
03/07/2011
Below the Raven's Nest
- David Wagoner
I was trying to find my voice
under a fir tree and scribble
and scrath something more
or less like it onto a page
but she came down halfway
from her crosshatched jumble
of sticks and seaweed, wedged
near the broken crown,
and explained her situation
with grinding ckucks, tut-tuts,
and insincere chuckles,
as if forgiving the rudeness
of a first offender, a violator
of rules maybe too difficult
for dim-witted outsiders
to take in, to get a grasp on
without official help. We stared
at each other. She decided
I might be hard of hearing
or somehow hopelessly challenged,
dropped to a lower branch,
and leaning forward
for emphasis, began cooing
to an idiot child, then barked,
had a brief asthma attack,
warmed a very bad boy
(who'd just disgraced himself)
never to do it again,
and after some teasing lip smacks
and a one-legged squat,
in case I was simply speechless,
gave me a death rattle.
I was trying to find my voice
under a fir tree and scribble
and scrath something more
or less like it onto a page
but she came down halfway
from her crosshatched jumble
of sticks and seaweed, wedged
near the broken crown,
and explained her situation
with grinding ckucks, tut-tuts,
and insincere chuckles,
as if forgiving the rudeness
of a first offender, a violator
of rules maybe too difficult
for dim-witted outsiders
to take in, to get a grasp on
without official help. We stared
at each other. She decided
I might be hard of hearing
or somehow hopelessly challenged,
dropped to a lower branch,
and leaning forward
for emphasis, began cooing
to an idiot child, then barked,
had a brief asthma attack,
warmed a very bad boy
(who'd just disgraced himself)
never to do it again,
and after some teasing lip smacks
and a one-legged squat,
in case I was simply speechless,
gave me a death rattle.
02/07/2011
Sintonia para pressa e presságio
- Paulo Leminski
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalso ao espasmo.
Eis a vez, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalso ao espasmo.
Eis a vez, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.
01/07/2011
Sentença
- Anna Akhmátova
Caiu a palavra de pedra
no meu peito ainda vivo,
não faz mal, eu estava pronta,
de qualquer modo sobrevivo.
Tenho que fazer: a memória
há que matá-la até ao ovo,
devo petrificar a alma,
é preciso viver de novo.
Ou... O verão, seu murmúrio quente,
é como festa além do umbral.
Minha alma há muito o pressente:
casa vazia em dia claro.
30/06/2011
Alguns versos
- Antonio Cicero
As letras brancas de alguns versos me espreitam
em pé no fundo azul de uma tela atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde ao levantar quase nada o olhar
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.
As letras brancas de alguns versos me espreitam
em pé no fundo azul de uma tela atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde ao levantar quase nada o olhar
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.
28/06/2011
À canseira da vida humana
- Gregório de Matos
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente Varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco c’os demais, que ser sisudo.
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente Varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco c’os demais, que ser sisudo.
27/06/2011
A noite dissolve os homens
- Carlos Drummond de Andrade
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.
O chão é cama
- Carlos Drummond de Andrade
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para reposar do amor, vamos à cama.
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para reposar do amor, vamos à cama.
25/06/2011
Plenilúnio
- Fernando Pessoa
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira —
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,
Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada
Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —
A expirar mas nunca expira —
Uma flauta que delira,
Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila
Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...
Cumplicidade
- Soares Feitosa
Chamar pássaros
com alpiste de amá-los livres,
procuradores eles serão,
ad judicia,
ad negotia,
pleni,
plenipotenciários,
procuradores meus,
asas livres aos meus azuis.
Eles me pousam os parapeitos:
uma sombra,
tem que haver uma sombra cúmplice:
seja de aproximar,
seja de chegar bem perto,
parece que é.
O que garante o medo
é o gesto das duas mãos,
as duas,
conchadas de pegar
em quase...
a alma do pássaro
—— não, não:
“avoe, meu bicho”,
que não lhe devo... ——
A intimidade é sutil,
(dos pássaros)
não só a deles:
é sutil
quando estremece
e pousa.
Sempre.
Chamar pássaros
com alpiste de amá-los livres,
procuradores eles serão,
ad judicia,
ad negotia,
pleni,
plenipotenciários,
procuradores meus,
asas livres aos meus azuis.
Eles me pousam os parapeitos:
uma sombra,
tem que haver uma sombra cúmplice:
seja de aproximar,
seja de chegar bem perto,
parece que é.
O que garante o medo
é o gesto das duas mãos,
as duas,
conchadas de pegar
em quase...
a alma do pássaro
—— não, não:
“avoe, meu bicho”,
que não lhe devo... ——
A intimidade é sutil,
(dos pássaros)
não só a deles:
é sutil
quando estremece
e pousa.
Sempre.
21/06/2011
A um poeta
- Olavo Bilac
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, no silêncio e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
20/06/2011
Traduzir-se
- Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
19/06/2011
A dupla situação
- Carlos Drummond de Andrade
Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal de que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.
Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.
Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.
Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.
Um silêncio tão perfeito
como o que baixou agora:
sinal de que já morremos
ou nem chegamos ainda à Terra.
Acabamos de sentir a morte
nas veias substituir o sangue.
Circulamos na atmosfera,
somos, corpo e brisa, um só.
Ou flutuamos no possível
sem pressa de, sem desejo de
atingir o irretratável
movimento do nascimento.
Este silêncio tão completo
em si, em nós, em nossa volta,
converte-nos em transparente
esfera
contemplada contemplativa.
18/06/2011
Entre o ser ou o não ser
- Ana Garrett
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
17/06/2011
Por que não viver ao vivo?
- Camila Da Vinci
De repente tudo se tornou tão previsível.
Acordarei e repetirei o ritual diário
Não farei nada de novo
Mas pode ser que eu conquiste um novo público.
O cenário não mudou
Mas reparo uma mudança:
Os atores não são os mesmos.
Ah! mas são os mesmos personagens!
Aquele ali eu já conheço
Aquela? Já interpretei muitas vezes
A cena se repete sempre
A emoção mais expressiva que observo?
Uma “Tensão Pré-Flash”
E que exigência a câmera nos faz!
Tão felizes, tão magros, tão agradáveis
E cada vez mais distantes de nós mesmos
Em que cabeça vejo os cabelos do comercial de Shampoo?
Fios lindos e saudáveis
E, voando no mesmo vento que os balança,
Uma consciência remota
Ria de si mesmo
Mas não chore na frente dos outros.
Não te reveles a qualquer um!
E a ti, quando te revelarás?
Perdemos quem somos.
Olhei meu rosto no espelho
Ornado de lápis, blush e batom
E me perguntei quem eu queria representar
Com aquele retrato que acabara de pintar
Fiquei aborrecida com a questão
Lavei o rosto.
E mesmo com a face limpa
Não reconheci quem eu era
Eu era uma tela em branco esperando qualquer cor?
Onde estariam os rascunhos e estudos que antecederam aquele final?
Era como se eles tivessem se perdido
Agora a minha verdade era aquele personagem
Do qual não era de minha autoria sua história
Mas que eu sabia de cor cada falso ato seu
Por que não viver ao vivo?
Falta coragem de assumir o errático
Então, simplesmente perguntamos:
- Se a suavidade existe, por que toda essa aspereza em viver?
E esquecemos que sentir é seco e sem anestesia
16/06/2011
Poema-orelha
- Carlos Drummond de Andrade
Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
14/06/2011
Hymne à la Beauté
- Charles Baudelaire
Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
O Beauté? ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin.
Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.
Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.
Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.
L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L'amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l'air d'un moribond caressant son tombeau.
Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté! monstre énorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu?
De Satan ou de Dieu, qu'importe? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, — fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! —
L'univers moins hideux et les instants moins lourds?
Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
O Beauté? ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin.
Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.
Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.
Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.
L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L'amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l'air d'un moribond caressant son tombeau.
Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté! monstre énorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu?
De Satan ou de Dieu, qu'importe? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, — fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! —
L'univers moins hideux et les instants moins lourds?
12/06/2011
Vários efeitos de amor
- Lope de Vega
Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e corajoso;
não ver fora do bem centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;
furtar o rosto a um claro desengano;
beber veneno por licor suave;
esquecer o proveito, amar o dano;
acreditar que o céu no inferno cabe,
dar a vida e a alma a desilusões,
isto é amor;
quem provou bem sabe.
Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e corajoso;
não ver fora do bem centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;
furtar o rosto a um claro desengano;
beber veneno por licor suave;
esquecer o proveito, amar o dano;
acreditar que o céu no inferno cabe,
dar a vida e a alma a desilusões,
isto é amor;
quem provou bem sabe.
11/06/2011
Ave, Palavra
- João Guimarães Rosa
[...] Eu estava ali, cheio de mente,
mas nas imagens do meu mar de morte,
morada de ninguém;
apenas minha?
Em meio de muito pranto sei:
agudos os ossos da alma
e toda beleza é distante.
Só o túmulo obedece.
Todo ídolo é tentativa de
deter o tempo.
(Nem o ar é meu, nem
o que é meu é meu. E o
relato que é meu,
do chão do mar)
Eu morro de autenticidade!
Não! Que eu ainda não sou!
Que eu ainda não sou saudade...
Saudade - as modulações
do escuro;
As falenas de além-fogo, e
uma nudez de espada: a ardente
neutralidade de um anjo. [...]
[...] Eu estava ali, cheio de mente,
mas nas imagens do meu mar de morte,
morada de ninguém;
apenas minha?
Em meio de muito pranto sei:
agudos os ossos da alma
e toda beleza é distante.
Só o túmulo obedece.
Todo ídolo é tentativa de
deter o tempo.
(Nem o ar é meu, nem
o que é meu é meu. E o
relato que é meu,
do chão do mar)
Eu morro de autenticidade!
Não! Que eu ainda não sou!
Que eu ainda não sou saudade...
Saudade - as modulações
do escuro;
As falenas de além-fogo, e
uma nudez de espada: a ardente
neutralidade de um anjo. [...]
10/06/2011
Déjeuner du matin
- Jacques Prévert
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et j'ai pleuré
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
Et j'ai pleuré
09/06/2011
Momentos como esse
- Rodrigo Capella
Luzes de lindos lábios,
Raios tênues e cristais,
Momentos de desejada dor,
Fantasias e mágicos sonhos.
És tão bela e insensata,
Carícias sem abraços,
Dores de belas canções,
Beijo, sensações.
Venero-a como uma flor,
Puras luzes obsecuras,
Tua rara beleza.
Desejos como esse,
Jamais terei.
Pensar em você,
Não morro por quê?
Luzes de lindos lábios,
Raios tênues e cristais,
Momentos de desejada dor,
Fantasias e mágicos sonhos.
És tão bela e insensata,
Carícias sem abraços,
Dores de belas canções,
Beijo, sensações.
Venero-a como uma flor,
Puras luzes obsecuras,
Tua rara beleza.
Desejos como esse,
Jamais terei.
Pensar em você,
Não morro por quê?
08/06/2011
Segredo de Camarinha
- Micheliny Verunschk
Cora,
teu retrato amarelado de moça
fala à minha dor.
Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada de minha dor.
Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.
Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.
(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)
Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.
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