22/04/2020

lição das árvores

-  gil t. sousa


lição das árvores:
regressamos nus do abandono

e como o tempo nada devolve
pairamos sobre a morte
como frutos interrompidos
que ninguém
sabe colher

maresia

-  Stephanie Borges


o vocabulário do desejo
enche a boca d’água
respira,
para que o corpo não tropece
nas palavras
que voltam a ter gosto
agora, o sal é sutil
depois do mergulho é inevitável
lamber os lábios
a alegria de chegar
de mansinho, descobrir
a temperatura com os pés
saber entrar pedindo
licença,
batendo cabeça
avançando de lado
para que a onda te atravesse
equilibrar-se gingando, sim,
é uma dança
os músculos sabem de cor
essa língua
nativa submersa
aparentemente esquecida
maré que transborda
quando se te sem
com quem falar

Não sei que dia é à minha volta

-  Cláudia R. Sampaio


Não sei que dia é à minha volta
mas sei que fomos avistados na
certeza deste bairro,
rodeados de carros tristes e pombos
esmagados,
rodeados da comovente dor dos
candeeiros que servem para dar à
luz coisa nenhuma

És meu em redor e o significado disto
vem devagarinho, mesmo que por entre
todas estas varandas e camas separadas,
famintas
Estás presente no meu ácido valpróico
e eu, dentro da tua boca a servir-te de sede
apesar dos olhos pungentes

Mesmo quando não abrimos os braços
à distância certa da nossa força
mesmo se as dúvidas atiçam 
presas às nossas costas
faz parte disto tudo, sabes, um
gramatical ruído nos ouvidos

Para que melhor me entendas
queria estender-te o pensamento
em palavras, mas não sei falar.

Para se falar é preciso estar dentro
da vida
É preciso encontrar uma rua que nos
leve ao peito
mas as ruas não andam
e eu nem a casa regresso

A minha linguagem é mais seca que
um deserto e mais incompreensível
que estes loucos que trago pendurados
na boca
Falar provoca doenças
Falar é mais grave que um tiro
Há que ter cuidado para não morrermos
de palavras por isso nem sou eu que
escrevo
é a mão da minha infra-consciência

Mas quero dizer-te que estamos aqui,
não duvides, perante os carros mal
estacionados,
perante os braços exemplares dos
nossos amigos - e as suas ausências
perante o modo como atinges o ar
com a graça do que te eleva,
perante os meus seios empinados-contentes
e o desembarque da tua exclamação divina

Estamos aqui e eu quero dizer-te
que é de ti que vêm as casas
e é de ti que vêm os ossos
E que se quiseres podemos ser
como as pontes:
eu num lado, tu no outro
e no meio a distância que
quisermos dar.

26/03/2020

E se estas voltas de fechadura

-  Valerio Magrelli


E se estas voltas de fechadura
não acabassem nunca?
E se tivesse de ficar toda a vida
aqui fora, a dar voltas à chave?
Faço a cópia das minhas chaves
faço a cópia das minhas cópias
o que gasto para as multiplicar
serve para tirar a cada uma o seu valor
o meu Valerio. No perfil dos versos
reproduzo o recorte
dentado das chaves.


(Tradução de Rosa Branco)

As portas

-  Ruth Fainlight


Há o trabalho de dar à luz.
Já o conheci – às vezes
lembro até o esforço de nascer.
Para vir está ainda
o trabalho de deixar a vida. Vi como é difícil
para alguns, enquanto outros,
que estavam presentes num momento
a seguir desapareceram. Passei
a porta da carne. Agora, a espera – quanto ainda? –
para aprender a última tarefa
antes de atravessar a porta da terra.

(Tradução de Ana Hatherly)

para o leitor ler de/vagar

-  Herberto Hélder


Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminos-
Idade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou
um esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.

Sou fechado
como uma pedra pedríssima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.

— Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês atroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
Podres. E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As ondas de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amarguradas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primitiva face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.

Leitor: volto
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. Este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. —
Ondas do que um leitor devagar.

como se mantém

-  Egito Gonçalves


Como se mantém
este deserto?

Praças sem vida,
sombras nos passeios,
estores corridos
nas janelas…

Poderiam só palavras
convencer,
abrir varandas,
pálpebras,
descerrar os dentes?

Existe algum segredo
neste magma
capaz de o erguer à dor
de um coração?

30/09/2019

jacarepaguá


-  Joana Lavôr


é tarde, estou velho cansado
sou uma espécie de traficante de morangos
a casa completamente verde por dentro, o chão gelado
sinto tempo para dores nas costas
tudo, exceto eu, carrega cadeiras mesas de palha
os discos de meu pai.
todos os dias muita lama no caminho
esse foi passivo, congelado
olho para o chão, percebo que a casa está no mato,
é Jacarepaguá, sou eu
muito confuso no rodapé e na parede
o chão não é o mesmo, mas sinto
tombado o móvel antigo
tem o mesmo cheiro e retoma tudo. é isso
descanso olhando os móveis saindo da casa
dão má sorte e giram na varada
carrego muitas cestas e samburás
coloco-as na pequena sala
onde meu pai guardava os registros em filas
muitos estão exaustos e abertos
nadando imóveis.
encoberto, não sabia se queria me defender, não queria
levantar a bota, cai sempre um pouco da lama, essa é a água.
estou ficando cada vez mais magro e próximo de Ana.
pequeno e sufocado fitando paredes
muito confuso olhando a água que chega,
vejo o rosto                        meu pai no teto
pela primeira vez paro de ser passivo jogo
braços para tocar. não posso,
me afogo, engulo
dentro não consigo ver
uma janela que abre         nada sai da casa
caio no quintal e olho Ana
de pé, ela cresce pegando muita chuva sorrindo no escuro
sou mais jovem, tenho 4 anos e corro para ela
palha e plantas por todo o chão
nós nos seguramos sob a chuva.

13/09/2019

é o que está dando pra fazer agora

-  Marina Sereno


é o que está dando pra fazer agora: aprender a se segurar, sem tanto alarde, se espalhar em silêncio, construir uma base, firmar uma rede por debaixo da terra, pelas paredes, saber ficar firme, ter onde se agarrar. o tempo e a firmeza são coisas que aprendo com as plantas: desenterrei a semente porque plantei no fim do ano passado, supus que não tivesse vingado, já é setembro e nada. mas o tempo do abacateiro é esse: é preciso uma raiz forte pra sustentar um corpo de abacateiro. o tempo da roseira acho muito bonito, um tempo do corte: é preciso podá-la com frequência e sustentar o ato é sempre difícil, me dói muito, acho que nela também, mas depois da perda ela se propaga em força e flores. o tempo das trepadeiras geralmente é muito rápido, quase urgente, talvez porque elas já sabem inventar pernas e braços e se apoiar em lugares improváveis, se deslocam com facilidade. na calçada aqui embaixo a prefeitura arrancou uma árvore dessas muito antigas, tenho visto essa imagem com frequência: é preciso abrir o chão para extrair as raízes que estão por dentro dele, elas são picadas em vários pedaços menores. essas árvores quando caem arrancam o chão junto, ele vem colado na raiz, um chão inteiro. desdobrar raízes por onde não se espera, é o que está dando pra fazer agora: cultivar raízes tão imensas que comprometam as estruturas, aos poucos/raízes aéreas que permitam se movimentar por cima das coisas, pelo teto, pelas janelas, rapidamente. arrancar um chão, inventar outros.





24/07/2019

com unhas e dentes

-  Luís Filipe Parrado


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

Uvas

-  Orides Fontela


Mesclados: o mel
e o mal

a vida: madura
impura

doces-podres
bagos

em que o gozo do mel
inclui o mal

em que o gosto
de podre
aguça o fruto.

Alba

-  Orides Fontela


I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
                                   na carne.


II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
   é sempre.


III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.


IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!

é preciso acordar no meio dos animais

-  Thiago Grisolia


é preciso acordar no meio dos animais,
enfrentar suas turbinas, suas caudas, seus chifres,
seus órgãos sexuais,
seus fluidos impossíveis,
é preciso estar cara a cara com seus focinhos de monstro,
com seus intestinos onde fervilham gases pestilentos,
com sua fedida acrobacia de estômagos.
é pelo estômago das feras que começa qualquer manhã.

é preciso, ainda, ver os pelos de suas línguas,
as grandes brotoejas, as crinas
que pendem dos enormes orifícios das papilas.
e beijá-los. sem temos do hálito,
do alto teor de excremento que exalam.
as feras dançam e não se esquecem.
as crianças não se perturbam.
seus dentes perfuram o vazio das fumaças.
é preciso saber que há fogo.
queimar-se.
a potência de estar no meio deles:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros.
amá-los - convivas indecentes!

amo os animais. os que se deitam na cama,
os que amassam o amor possível,
os que entopem a privada,
que trituram os ingredientes,
infiltrados no coador,
no liquidificador,
no fogão a gás. no cheiro que fica,
como uma usina interditada,
como a casa de uma poeta suicida.
cuspir essa fala dos bichos!
dilatar sua demência como colírio nas pupilas!

é preciso mais que nunca alimentá-los,
para que sua existência seja a cada dia confirmada,
a cada dia amada.
deixamos a luz acesa? esqueci a cafeteira?
quero provocar todos os acidentes
para morrer com os animais.
faminto, mas sem cumprir nenhuma regra.
sem hinos, mas com a marca inconfundível do desejo.
amei. fui amado.
fui metralhado.
estou em pedaços, mas a história permanece.

é preciso amordaçar os bichos,
para que não gritem as senhas,
os sermões,
os corações partidos,
ou qualquer outra das amenidades
que de dentro deles
fazem surgir
a palavra
eu.

03/06/2019

Basalto

-  Luís Miguel Nava


Agora que se o mar ainda
rebenta é por acção da memória, arrancam-me
basalto ao coração ondas fortíssimas.

Ainda o vejo às vezes por aí, olhamo-nos
então como se à boca
nos viesse o sabor do nosso próprio coração,
mas pouco há a dizer acerca disso.

30/05/2019

dois velhos filhos de Gandhi


-  Marina Sereno


dois velhos filhos de Gandhi
cruzados de miçangas aos pés
da igreja do Bonfim concluem 
falta agora comer um acarajé
que é a oferenda de Iansã para Xangô
numa carta Dorival escreveu para Jorge
a Bahia está viva, ainda lá
o firmamento azul
esse mar tão verde
e o povaréu

a Bahia está viva
no último sábado o cortejo afro foi
interrompido
para Erica Malunguinho subir ao palco
e falar
sobre o que estamos construindo
sobre as vidas de que não abriremos mão
porque ela estava presente na festa dançando
num vestido longo e vermelho
e porque a presença
de seu corpo será indispensável
nos nossos próximos mundos

pelo Rio Vermelho as frases
escritas nos muros
fundamentam as nossas apostas 
enquanto os nomes de todos os orixás irrompem pelos cantos da cidade
todos os nomes direcionam meu passo

visito Salvador com a frase
de Natalia Ginzburg em 1963 lembrando 
do tempo feliz quando o fascismo parecia
que ia terminar logo
não acabou, Natalia, ainda não
mas por aqui as pretas estão se amando tanto
que é visível na postura de seus corpos
na firmeza de seus caminhos
elas passam coroadas e brilhosas
e se beijam
os terreiros centenários são sinalizados
por placas de trânsito
e o iorubá parece ser uma língua oficial
pois está nos nomes
de bairros e borracharias

os baianos me pedem para ter paciência
em todo lugar que vou, repare
eu que sempre fui a mais paciente em qualquer
mesa de bar mas aqui
é preciso
se mover num tempo
que não conhecemos
não destruir-se
e amar Iemanjá

Só quando vi Adelaide


-  Seane Melo


Só quando vi Adelaide, poeta nordestina, no palco, recitando mulheres mortas me ocorreu que esse meu defeito de falar de dor e tristeza talvez fosse regional. Enquanto ela falava de corpos assassinados e violentados, me perguntava por que era inédito, por que todos os anos, desde que mulheres sobem em palcos, não repetimos aqueles nomes? Desde que vim pro Sudeste, aprendi a ter vergonha da violência que me gestou. Fui melhorando a língua, os gestos, viajei menos no Natal.
Uma tia uma vez mandou mensagem, dizia que sentia saudades. Respondi que também. E ela pareceu emocionada, se é que é possível perceber uma emoção no chat do Facebook. Disse que se achava boba por achar que eu não responderia. Pensei comigo que responder era fácil, nunca foi o mesmo que encarar a nossa dor genealógica em carne viva.
É engraçado estar do lado de fora, esquecer que o que tanto gostei em Gabriel García Márquez era da ironia do destino das vidas marginais. Minha família materna, as mulheres da minha família materna são uma antologia dessas ironias. E quando vejo Adelaide falar de balas, nucas e cus ensanguentados, eu penso que é só convivendo com essa ironia que não se desvia mais o olhar ao falar de dor. Mas, ao contrário dela, continuo desviando, por medo de me entregar. Deixo que chamem de agressividade os gestos familiares, faço terapia e rezo por mamãe.
Mas a história das mulheres da minha família não é triste, é irônica.
A mais irônica é a história da tia que brincava comigo de Chiquititas. Um dia ela disse o que queria ser quando crescer: sexóloga. Ela me ensinou essa palavra. Mas acabou que, aos 19 anos, tinha escolhido um percurso diferente, ainda que dentro da sua coerência. Fazia programas. Finalmente uma puta de verdade naquela casa em que todas as mulheres recebiam esse nome.
Puta, foi como minha avó chamou outra tia, anos depois. Quando soube que ela estava grávida de três, quatro meses. Não adiantou explicar que tinha sido estupro.
Puta, talvez ela tenha dito para outra tia quando ela voltou de Brasília, com um filho abandonado pelo pai. Mas essa tia bancava. Bancava o filho e ajudava na casa, trabalhava de tudo, aprendia infinitamente, não sei se algum dia se importou com os xingamentos.
Mais tarde, essa tia se juntou ao MST. Agora ela é sem terra, quando ouvi a brincadeira de papai me peguei surpresa. Nunca tinha percebido que minha tia não tinha nada. Depois de ter conseguido uma terra, a ironia é que minha tia sofreu um acidente de moto e se tornou deficiente. Hoje manca, tem um homem e duas novas filhas, a mais nova deficiente. Mas ela não admite, dizem, enlouqueceu. 
O mais irônico é que a tia que era puta deixou de ser muito rápido. Do seu passado, é mais lembrada por ter sido magra. Teve um filho com um. Casou com outro. Teve outro filho. Dobrou de tamanho. Sempre falaram mais do peso que de qualquer outra coisa. Até o dia em que mamãe me mandou uma notícia no zap. Página policial. Reconheci ela na foto depois de um tempo. Foi presa com o marido, vendendo cocaína. Fiquei pensando se traficante teria o mesmo impacto que puta no vocabulário da vó. Depois de um tempo foi solta para poder cuidar dos filhos enquanto esperava o julgamento. Disseram que ia ter que andar de tornozeleira, estava em falta. Mas o irônico mesmo é que está emagrecendo e posta o processo no Instagram.
A tia que foi estuprada teve uma menina. Peluda como ela, calada como ela, mansa. Se juntou com um homem bom, deu um pai bom pra menina. Até o dia em que ele partiu em mais uma viagem, era caminhoneiro, e nunca mais voltou. Especula-se que foi a família que o impediu de voltar, outros dizem que tinha outra mulher e outros filhos. Deixou a menina sem pai e sem explicação, deixou a tia de cama. Tem dias que ela não levanta, tem anos que só funciona com remédios. Depois de muitos exames, concluíram que os danos no seu cérebro eram decorrência principalmente de agressões, pancadas, cascudos. Minha família sempre dominou a arte dos cascudos dolorosos. Mamãe chorou quando chegaram os resultados.
A tia que foi adotada é mais nova que eu. Diziam que foi a única filha mimada, que era preguiçosa e burra, que vivia com o cu arreganhado. Quando cresceu, fugiu com uma mulher mais velha. Morou com ela por alguns anos durante os quais deixou de ser parte da família. Disseram que não era lésbica, não, era interesseira. Um dia voltou e, pouco tempo depois, engravidou. Dizem que o pai é bandido, que é preguiçosa, que continua com o cu arreganhado e nem do próprio filho cuida. O mais irônico é que não é amarga, o mais irônico é que trata a vó com amor.
A tia que tinha uma galeteria, quando nasci, já era casada com o mesmo homem de hoje. Sustentou os dois filhos e o marido e suas amantes com o negócio. Podia ser rica, dizem. O irônico é que foi diagnosticada com câncer de mama. Durante um ano e alguns meses morou com a minha mãe, fez quimioterapia, cirurgia, radioterapia e bordou panos de prato sem parar, como se tivesse medo de morrer e deixar um conjunto de panos de prato incompleto, sem todos os dias da semana. Durante um ano, a filha a visitou uma vez, o filho nunca foi. O irônico é que ficou com os dois peitos, mas da sua casa e do seu negócio doaram até a roupa de cama. Acharam que ela ia morrer, pensamos. Deveria ter bordado colchas também.
A tia que passou num concurso público mora em Brasília. Falamos raramente sobre Harry Potter. Ficou loira e tem um gato, é o que sei sobre ela hoje.
Nana não teve tempo de ser minha tia, morreu criança. Morta, sempre foi tratada com carinho. Mulheres mortas não se tornam putas.
A última filha de minha vó é na verdade minha mãe. Mamãe me disse que não escrevesse nossa história. E, enquanto essas linhas foram escritas, percebi que tinha razão. Porque escrever é ordenar e ordenando crio sentidos. Alguns poucos sentidos, na verdade. Não chamariam essa história de realismo fantástico, como eu gostaria, chamariam tragédia. Chamariam até de vitimismo. E, disso, de torná-las vítimas em suas próprias histórias, minhas tias nunca me perdoariam.
O problema é que as palavras realmente têm limites se tentam capturar forças inexplicáveis. Essas mulheres que carregam mundos, mas cuja maior e mais antiga luta é apenas uma: perdoar sua própria mãe.

Eu estou me cuidando e isso tem a ver com andar por onde não deveria

-  Priscilla Menezes


Eu estou me cuidando e isso tem a ver com andar por onde não deveria. Tanta coisa desmorona, mas não o que, em sua queda, abriria espaço para mais formas de vida. O desejo é uma força assustadora. Enquanto pudermos desejar, seremos a constante possibilidade de uma bomba rente ao estado de coisas. Eu te desejo muita fúria. Eu desejo que nossas águas se encontrem, formem correnteza e vinguem a memória de todos os rios aqui soterrados. A terra vive e conspira e nós também. Nossas águas poderiam condenar todas as estruturas desse mundo erguido pelos homens.  A umidade traria tudo abaixo e teríamos que, uma vez mais, olhar para a terra, onde temos aliados. O que queima, o que enfrenta, o que não cessa de retornar. O estado aquoso da matéria, que, multiforme, escapa e avança. Isso há fora e dentro de nós e constitui um manancial que assombra a firmeza de toda pátria. Disso eles sabem muito pouco. Isso eu falo nos vãos, em becos, nas ruelas. Para que faça eco e também eu escute. Que escorra.




a mulher que sabia chorar pelada

-  Carla Diacov


a mulher que sabia escrever chorando
encostava os bicos no aquário e
chorava pelada sobre os peixes
chorava pelada sobre o tricô
a mulher que sabia chorar e varrer pelada
pelada a mulher que tinha mil e oitocentos espelhos
numa só parede amarelada
alcançava os temperos queimando as tetas
a mulher que sabia cozinhar pelada
sangrava onde passava o pano a enceradeira
a mulher que sabia menstruar pelada
a mulher que menstruava tocando harpa pelada
também cagava a mulher que sabia mijar pelada
olhava o frango pelado sobre a tábua
metia o dedo no cu do frango metia os dentes de alho e pimentas peladas
a mulher pelada e um cutelo na direita
a mulher que sabia chorar pelada
a mulher que sabia gargalhar pelada
era o nome dos cigarros de predileção do marido da vizinha

19/01/2019

água cinza

-  Joana Lavôr


esqueço o filtro aberto porque
molho os pés sempre que 
sonho com o armário de travessas vindo

filomena, meus braços rachavam
segurar arrebentar o pâncreas
servir a mesa enquanto todos saem do quintal, 
jardim escuro, 
correm enquanto 

paredes de hera se encolhem 
arranca a mesa bem servida
todos correm eu sirvo 
bandejas pratos cheios de almondegas
travessas vidro caindo água aberta

o touro voa bem na fresta 
pela janela onde pessoas saem
eu sirvo o touro
























transporte com lodo

-  Joana Lavôr
                                                          para maya

o homem embrulhado
passava longe d'água
mantinha minhas 
tábuas guardadas
éramos quatro
segurando janelas,
touros joelhos dobrados
correndo roupas ferreiros
o mastro d'água os espelhos
coxas abertas em lodo 
areia ventrículos curvos
o touro diz pareço 
um peixe entre seus braços 
falto com o respeito
colecionismo fora do mar
persegue, tua costela não
cola quente carne lodo
percorre beiras de espetos
são formas de boiar
sair com as mãos duras
tantas algas bananas podres
matriarcas, andamos enfiadas
sempre tanto quanto vênus 
o coração azul para fora
deixo nossos corpos 
aguados esquecidos grafite 
dura bem na barriga 

mar meio de transporte